Em Balneário Arroio do Silva, cidade com menos de 18 mil habitantes, Pizza Água na Boca amplia o conceito tradicional de pizzaria com eventos, entretenimento, presença digital e iniciativas que ajudam a manter o público conectado à marca além da alta temporada
Em uma cidade litorânea onde a chegada do verão tradicionalmente muda o ritmo do comércio, construir um negócio de alimentação capaz de permanecer na rotina dos moradores durante todo o ano exige mais do que um bom cardápio. Em Balneário Arroio do Silva, no extremo sul de Santa Catarina, o empresário Cristiano Oliveira e sua esposa, Suelen Schlisting, encontraram na criação de experiências uma das estratégias para fazer da Pizza Água na Boca mais do que um lugar para comer pizza.
Rodízio, delivery e salão fazem parte da operação, mas dividem espaço com programação musical, ações temáticas, encontros e eventos como a Quarta Gospel, noite dedicada à música cristã. A estratégia transformou o estabelecimento também em um espaço de convivência e ajuda a explicar uma tendência que ganha força na alimentação fora do lar: estabelecimentos deixam de disputar o consumidor exclusivamente pelo produto e passam a competir também pela experiência oferecida.
O movimento acontece dentro de um dos mercados mais concorridos da gastronomia brasileira. Levantamento da Associação Pizzarias Unidas do Brasil (Apubra), com dados de empresas registradas na Receita Federal, identificou 40.332 pizzarias de portes ME, EPP e Ltda. em atividade no país ao fim de 2025. Santa Catarina concentra 6,76% desses estabelecimentos, aparecendo entre os estados com maior participação no segmento. Apenas em 2025, 4.109 novas pizzarias foram abertas no Brasil, crescimento de 6,26% em relação ao ano anterior.
É nesse ambiente que pequenos e médios empresários precisam encontrar formas de escapar da competição baseada exclusivamente em preço. Para Cristiano, a resposta passa pela construção de relacionamento.

“Não é fácil empreender em um município com pouco mais de 17 mil habitantes, como Balneário Arroio do Silva, com uma renda per capita de aproximadamente R$ 16 mil por habitante. Mas nós acreditamos no nosso negócio e decidimos fazer história aqui. E hoje estamos vivendo algo que, para muitos, poderia parecer improvável: pessoas estão vindo de outras cidades e até de centenas de quilômetros de distância exclusivamente para conhecer a Pizza Água na Boca. Já recebemos clientes que viajaram mais de 200, 300 e até cerca de 680 quilômetros para conhecer o nosso trabalho”, afirma Cristiano Oliveira.
Empreender onde o verão muda a cidade
A localização acrescenta uma particularidade à estratégia. Balneário Arroio do Silva tinha população estimada em 17.786 habitantes em 2025, segundo o IBGE. Por ser um município litorâneo, entretanto, sua dinâmica comercial é fortemente impactada pelo turismo e pela alta temporada.
Para negócios gastronômicos locais, isso significa lidar simultaneamente com dois públicos: o visitante que chega em busca de lazer e o morador que precisa encontrar motivos para continuar frequentando o estabelecimento quando termina o movimento turístico.
Na Pizza Água na Boca, a tentativa de diminuir essa distância aparece na diversificação da programação. Além das pizzas, a empresa promove experiências ligadas a música, datas comemorativas e entretenimento. A Quarta Gospel é um dos exemplos mais claros da maneira como características pessoais dos proprietários passaram a integrar a identidade do empreendimento.
A fé cristã, importante na trajetória do casal, não aparece apenas como discurso pessoal. Ela ganhou espaço na própria programação da casa por meio de noites com música, louvor e convivência.
A proposta também evidencia uma transformação mais ampla na maneira como restaurantes independentes constroem suas marcas. O estabelecimento físico continua sendo o centro da operação, mas o relacionamento com o consumidor começa muito antes de ele ocupar uma mesa e permanece depois que vai embora.
Do salão para a tela
No caso da Água na Boca, essa extensão é particularmente visível nas redes sociais. O perfil da pizzaria no Instagram reúne mais de 21 mil seguidores e mistura imagens dos produtos com vídeos de clientes, eventos, bastidores, convidados e momentos vividos dentro do estabelecimento. Alguns conteúdos exibidos pela própria página alcançam dezenas de milhares de visualizações.
Mais do que funcionar como um cardápio digital, a estratégia coloca pessoas no centro da comunicação.
Essa proximidade se tornou especialmente relevante em um setor no qual os canais digitais também interferem diretamente na receita. Pesquisa da Abrasel mostrou que o WhatsApp já responde por 26% do faturamento proveniente de delivery dos bares e restaurantes pesquisados; 63% dos estabelecimentos consultados utilizavam o aplicativo como canal de pedidos.
Para empresas independentes, construir audiência própria também reduz a dependência de uma relação exclusivamente intermediada por grandes plataformas.
Um setor bilionário, mas de margens apertadas
O crescimento da alimentação fora do lar não elimina as dificuldades de quem empreende no segmento. O setor movimentou aproximadamente R$ 495 bilhões em 2025, acima dos R$ 455 bilhões registrados em 2024, segundo dados divulgados pela Abrasel. Ao mesmo tempo, custos elevados e dificuldade para repassar integralmente a inflação ao cardápio continuam pressionando as empresas.
Entre os negócios menores, a vulnerabilidade é ainda maior. Pesquisa da entidade mostrou que empresas com faturamento anual de até R$ 360 mil representam a ampla maioria do setor e enfrentam proporcionalmente mais problemas relacionados a endividamento, crédito e lucratividade.
Nesse cenário, fidelizar deixa de ser apenas uma estratégia de marketing. É também uma questão de sobrevivência empresarial.
Para Cristiano Oliveira, construir uma empresa significa justamente atravessar as dificuldades sem perder a identidade que deu origem ao negócio. A própria trajetória do empreendedor que atualmente também está sendo registrada em um livro sobre sua história reúne os caminhos, desafios e aprendizados que antecederam a consolidação da pizzaria.
“Eu acredito que existe algo maior nisso tudo. Às vezes, Deus coloca um sonho em um lugar que parece improvável aos olhos das pessoas, mas é justamente ali que Ele pode fazer acontecer. O improvável de Deus pode mudar a sua vida e pode mudar o seu destino. Balneário Arroio do Silva talvez pudesse parecer um lugar improvável para construir uma história como essa, mas nós acreditamos, trabalhamos, perseveramos e está dando certo. Por isso, para quem empreende, eu deixo uma mensagem: não desista. Acredite no seu negócio, acredite no seu propósito e, principalmente, acredite que aquilo que parece improvável para os homens pode ser possível quando existe fé, trabalho e perseverança. Nós estamos fazendo história em Balneário Arroio do Silva e essa história ainda está só começando”, diz o empresário.
Essa história também começa a ganhar um novo capítulo de expansão. A Pizza Água na Boca está estruturando um programa de franqueados, com o objetivo de levar o modelo desenvolvido em Balneário Arroio do Silva para outros mercados. A proposta é replicar não apenas a operação gastronômica, mas também elementos que passaram a caracterizar a marca, como a criação de experiências, o relacionamento com o público e a construção de comunidade em torno do negócio.
Quando o cliente passa a fazer parte da história
Talvez seja justamente aí que esteja uma das diferenças entre vender alimentação e construir uma marca local.
Nas redes sociais da Água na Boca, a pizza aparece frequentemente dividindo protagonismo com quem está ao redor dela: famílias, músicos, convidados, funcionários e clientes. A lógica é simples, mas estratégica: o produto leva o consumidor até o estabelecimento; a experiência ajuda a fazê-lo voltar.
Em um mercado nacional que continua crescendo o número de pizzarias analisadas pela Apubra avançou 10,29% em 2025 em comparação com 2024 diferenciação e vínculo com a comunidade ganham peso à medida que novos concorrentes entram no setor.
Para Cristiano e Suelen, esse vínculo passa também pelos valores que decidiram carregar para dentro da empresa.
Entre uma noite de rodízio, uma ação com clientes e os acordes de uma Quarta Gospel, a trajetória da Pizza Água na Boca mostra como pequenos negócios podem encontrar espaço em mercados altamente competitivos quando conseguem responder a uma pergunta que vai além do produto: por que alguém escolheria voltar?
Em Balneário Arroio do Silva, a resposta construída pelo casal tem passado por pizza, relacionamento, experiência e propósito.
Fontes de contexto: Associação Pizzarias Unidas do Brasil (Apubra) — Mercado de Pizzas; IBGE — Cidades e Estados: Balneário Arroio do Silva (SC); Abrasel — dados sobre delivery, faturamento e cenário econômico da alimentação fora do lar.

