Antes de Gilda, nunca houve uma mulher como Garbo. Bela como poucas, misteriosa e algo blasé, era uma das grandes estrelas do cinema mudo, senão a maior. Em 1930, a MGM anunciou, com estrondo, “Garbo fala!” A expectativa era alta. Diria coisas sublimes? Teria uma voz maviosa?
O filme em questão era “Anna Christie”, baseado em peça de Eugene O’Neill, ganhador do Nobel. Seu papel era o de uma prostituta sueca que vive o amor proibido por um marinheiro.
Passados 15 minutos, ela finalmente abre a boca: “Garçom, me dá um uísque e uma garrafa de ginger ale, e não economize na dose, amigo”. A voz é grave, a postura um tanto vulgar, o que está de acordo com o ambiente. Com senso de humor, o barman responde: “Quer que traga em um balde?”. “Não seria má ideia”, ela arremata para o bar vazio, decadente.
A frase entrou para a mitologia. Já estava no texto de O’Neill, assim como outros diálogos. O cenário foi inspirado num “saloon” frequentado pelo dramaturgo na região portuária de Nova York, chamado Jimmy the Priest, quando ele vivia de copo em copo, mais duro que uma pedra de gelo. Tomava rotgut whisky, um uísque de péssima qualidade, vendido por cinco “cents” a dose.
A esfinge sueca, como alguns a chamavam, iria beber melhor em outros filmes, com outro tipo de impacto. O mais conhecido deles é “Ninotchka”, comédia romântica de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, com roteiro de Billy Wilder e Charles Brackett. Ela interpreta uma rígida comissária soviética que vai a Paris e se vê seduzida pelos prazeres burgueses.
Ao servi-la com champanhe, um encantado Melvyn Douglas pergunta se ela prefere menos seco, ao que ela responde que a única vez que viu champanhe foi no batismo de um navio de guerra. Fora isso, cresceu tomando leite de cabra e a vodca distribuída pelo exército. (Os stalinistas não acharam a menor graça no filme, que foi proibido na URSS).
Ela dá o primeiro gole, estranha um pouco, até que abre bem os olhos e diz: “Mas isso é bom!”. E entorna a taça, para surpresa de seu cortejador. A partir daí as bolhas vão transformando sua seriedade cômica em alegria desenfreada. Dessa vez a propaganda do estúdio foi: “Garbo ri!”
Mas a fama não a fazia rir. Um dia resolveu se retirar do mundo dos flashes e fãs. Ficou marcada pela frase em “Grande Hotel”: “Quero ficar sozinha”. Participou de mais de 20 filmes e deixou a vida pública aos 35 anos. Era tímida, e há indícios de que sofria de depressão. Com o tempo, tornou-se um ícone queer.
Há duas variantes de coquetel com seu nome. A mais antiga é feita com Swedish Punsch, um licor muito popular na Suécia, espécie de rum açucarado. A outra é a que segue. A receita saiu pela primeira vez em 1948, no livro de David A. Embury, “Fine Art of Mixing Drinks”, época em que o mundo ainda esperava que ela voltasse a falar.
Greta Garbo
- 60 ml de rum (claro)
- 15 ml de Luxardo Maraschino
- 15 ml de xarope de açúcar
- 30 ml de suco de limão
- 7,5 ml de absinto
Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Decore com uma estrela de anis flutuando na superfície.
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Fonte ==> Folha SP

