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Escolhi essa pergunta, entre tantas que se angustiam com amores que não vingam, porque ela traz, discretamente, algo que costuma escapar: a percepção de que, muitas vezes, o desinteresse também é nosso —e nem sabemos bem por que algo esfriou em nós.

Implicar-se nesse incômodo, nesse “não saber”, evita que sigamos respondendo de forma simplista, mas acalentadora: culpando o outro. Cada um elege um culpado conveniente. As mulheres héteros dizem que o homem se assusta com as fortes e mantém flertes em paralelo para não renunciar a nada; os héteros, que elas pedem sensibilidade, mas se desinteressam quando a fragilidade aparece; os gays acusam a hipersexualização que reduz tudo a sexo; as lésbicas, o rebote de fusionar cedo demais. E todos culpam os apps e o egoísmo hiperestimulado de nossos tempos.

Esses comportamentos existem, mas tomá-los como verdade absoluta é não lidar com “a parte que nos cabe nesse latifúndio”. Reclamamos que “ninguém quer nada com nada”. Mas não percebemos que estamos em uma lógica de “tudo ou nada” que inviabiliza qualquer vinculação humana —essencialmente ambivalente, ambígua, falha e falta.

Por uma dessas sincronias, recebi enquanto escrevia o relato de outro homem: “Tenho a sensação de que tá sempre faltando algo… minha última relação chegou ao fim mesmo eu entregando a melhor versão de mim. Não foi suficiente… Tá difícil achar um denominador comum. Será que homens e mulheres querem coisas tão diferentes? Sempre falta alguma coisa”.

Sim, sempre falta alguma coisa. E não, não existe um denominador comum em nenhuma relação.

Vivemos um misto de “síndrome da Cachinhos Dourados” e efeito rebote do estresse pós-traumático. Como Cachinhos, recusando a pessoa real que se apresenta na lógica do “este mingau tá muito quente… este muito frio… ainda não é ‘bem isso'”. Como se o “isso” fosse alguém que atende todas as expectativas e sustenta a imagem que projetei dela a partir dos primeiros encontros gostosos. É a queixa do leitor: até há começos, mas o mingau nunca chega ao ponto de saciar nossa fome de amor e justificar a renúncia a tantos outros pratos —sempre na aposta de que o próximo terá o sabor do amor desejado.

Essa espera idealizada nos catapulta para uma espécie de adolescência revivida. Voltamos a querer apaixonamentos intensos no primeiro encontro e conexão absoluta. Ao invés de nos percebermos evitativos e intransigentes, nomeamos tal comportamento como “saber o que se quer e não se contentar com pouco”. “Eu me apaixonei pelo que inventei de você” já cantava Marília Mendonça. Somos traídos pela nossa própria recusa à castração, pela dificuldade de matar este ideal, de duvidar da nossa invenção.

Se nos apaixonamos pelo que inventamos do outro, também nos desapaixonamos pela nossa invenção e passamos a projetar nele os traumas que não elaboramos. Sob o efeito do estresse pós-traumático, usamos o passado como gabarito e nos mantemos em luta ou fuga, onde o viés de confirmação fala mais alto que a curiosidade. Diante de alguém que ainda não sabemos quem é, rebatizamos o medo de nos machucar de novo como certeza de reconhecer padrões que nos feriram e, num suposto ato de amor próprio, nos afastamos. Do perigo, argumentamos. Mas é do encontro e do amor que fugimos.

Trata-se de um sintoma do burnout afetivo: não estamos cansados do amor, mas do risco e do processo; do trabalho psíquico que ele exige.

Queremos o vínculo, mas resistimos à travessia. Já nos machucamos demais, já nos calamos demais, já permanecemos demais em relações apegados ao projeto da família e à ideia de que, com tempo e amor, o outro mudaria. Estamos exaustos. Não só de relações desgastantes, mas do excesso de trabalho, do trânsito, dos conflitos familiares. Nomeamos como preguiça o que é medo e intransigência. Dá preguiça de sair quarta à noite, gastar com drinks e acordar de ressaca sem saber se o investimento vale a pena. Dá preguiça de cancelar o futebol que você ama para acomodar o jantar no único dia em que ela está sem os filhos.

Sei que dá preguiça, medo, angústia e ansiedade. Mas ousar atravessar a arrebentação, dar tempo à construção da intimidade e ao fluxo oscilante do outro, de nós e dos afetos, dá muito tesão, brilho no olho, fé na vida.

Muitos amores não vingam porque saímos no trailer. Para não perder tempo, perdemos encontros; para não perder o ideal, interditamos o possível. Em muitos pedidos por amor, o desejo pelo outro já vem misturado ao de descansar da busca. Só seguimos se tivermos certeza de que vale a pena (esta certeza existe? Ou é nossa criança mirando no pote de ouro no fim do arco-íris, na completude do fusionamento materno? Freud, corre aqui!). E atrofiamos a capacidade de ver além da tempestade que apagou o arco-íris do amor ideal. É depois da frustração—quando o outro ou a relação não se apresentam como eu imaginava— que vem a pergunta: o que é negociável e o que não é? Esse é só o começo. De conversas, ajustes, atritos, encontros, desencontros e reencontros. Amor é isso.

Você quer um relacionamento. Mas será mesmo que você quer se relacionar?

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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