As restrições da China e da União Europeia (UE) às exportações brasileiras de carne bovina têm colocado o setor frigorífico em alerta, mas por outro lado devem aliviar o bolso do consumidor ao menos nos próximos meses.
Isso porque as dificuldades para exportar fazem com que uma parcela maior da produção permaneça no Brasil. Com mais oferta de carne disponível e a demanda relativamente estável, os preços já começam a cair. Segundo o IBGE, em junho o preço médio da carne bovina recuou nos açougues e supermercados pela primeira vez desde setembro de 2025.
Após recuar 2,34% no atacado em junho, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/Esalq-USP), os preços da carne bovina caíram 0,64% no varejo pelo IPCA.
No primeiro semestre, o quilo da carne havia acumulado a maior alta desde 2021. A tendência de baixa deve se prolongar até outubro, quando a renovação anual da cota chinesa deve voltar a movimentar a cadeia.
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Os motivos por trás do alívio no preço da carne bovina
No final de dezembro de 2025, o governo chinês impôs uma salvaguarda que prevê tarifa de 55% sobre volumes que excedam a cota — ante 12% dentro do limite. A medida entrou em vigor em janeiro, terá duração de três anos e prevê renovação anual da cota.
O Brasil já havia preenchido dois terços do teto anual até maio. Na última semana, o Ministério do Comércio da China informou que o país atingiu 80% da cota, mas a expectativa do setor é que o percentual seja maior: os cálculos de Pequim não contabilizam a carga já embarcada que ainda não chegou aos portos chineses.
A importância do mercado chinês para o Brasil torna a restrição sensível. Em 2025, a China absorveu 48% do volume total exportado pelo Brasil — 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,9 bilhões. Para 2026, o teto fixado por Pequim é de 1,1 milhão de toneladas.
Se as cotas chinesas já comprimem o setor, o cenário europeu agrava o quadro. Apesar de o acordo comercial provisório entre o Mercosul e a União Europeia ter entrado em vigor em 1º de maio, a UE retirará o Brasil da lista de exportadores aprovados de várias carnes a partir de 3 de setembro.
A justificativa: o governo brasileiro não comprovou adequação às normas europeias sobre uso de antimicrobianos.
A combinação das restrições europeias com o esgotamento das cotas chinesas amplifica o impacto sobre o setor, pressionando o planejamento e a rentabilidade dos pecuaristas em ambos os ciclos de confinamento do ano.
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Brasil esbarra em regras chinesas para ampliar exportações de carne bovina
Em maio, o Brasil solicitou à China o redirecionamento de parcelas da cota não utilizadas por países concorrentes, como Argentina, Uruguai e Nova Zelândia.
A redistribuição, porém, esbarra na mecânica do sistema. “As cotas do comércio internacional entre a China e o Brasil, assim como demais fontes de importação para o mercado chinês, são do tipo country-specific TRQs, ou seja, não há a possibilidade de transferência de cota entre exportadores como há em alguns mercados”, explica Cícero Zanetti de Lima, pesquisador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).
Na mesma linha, a Associação Brasileira de Agrobusiness (Abag) alerta que “qualquer eventual redistribuição de cotas depende exclusivamente das regras estabelecidas pelas autoridades chinesas, portanto é cedo para trabalhar com essa hipótese”.
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Novos mercados ganham força como alternativa
O caminho mais factível passa por duas frentes, segundo Zanetti, do FGV Agro: negociação governamental entre os dois países e busca de novos destinos para a carne bovina.
O pesquisador ressalva o diferencial tarifário: dentro da cota, a alíquota é de 12%; fora dela, salta para 55%. “Esse valor de tarifa somente será absorvido pela indústria de carne se a margem diminuir. Porém isso colocaria o setor como um todo em uma situação muito vulnerável.”
A Abag endossa a estratégia. “Diversificar exportações não significa substituir a China, e sim reduzir riscos e ampliar oportunidades para todo o segmento.”
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Mercado interno não deve absorver excedente
Diante de cotas esgotadas e barreiras europeias, as margens da cadeia produtiva devem estreitar nos próximos meses. “A carne bovina é uma commodity e seguirá os preços internacionais de importação e exportação. O que podemos esperar são margens mais apertadas devido à restrição de cotas”, projeta Zanetti.
O mercado interno, porém, dificilmente absorverá o excedente que não for exportado. “O primeiro motivo é preço, e o segundo é a renda, o que dificulta o acesso de parte da população a esta proteína”, acrescenta o pesquisador.
Para a Abag, no curto prazo, é natural que haja ajustes nas exportações, com reflexos sobre preços e margens da cadeia. Parte desse volume precisará ser direcionada a outros compradores ou absorvida internamente.
A entidade, entretanto, mantém leitura otimista de longo prazo: “Os fundamentos da pecuária brasileira permanecem sólidos. O Brasil é competitivo, tem elevada credibilidade sanitária e continuará sendo um dos principais fornecedores mundiais de carne bovina.”
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Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br
