De onde vem o incômodo de namorar alguém com filhos? – 15/04/2026 – Amor Crônico

Três silhuetas sentadas de costas para a câmera observam o sol se pondo no horizonte, com o céu em tons intensos de laranja e vermelho.

Namorar alguém com filhos é saber que sempre haverá um terceiro elemento presente e, na teoria, torcer para que esse terceiro seja mesmo presente e tenha uma boa convivência tanto com as crianças como com a pessoa com quem você está hoje.

Afinal, você defende a importância de ressignificarmos o conceito de família, podendo proporcionar aos filhos dos divórcios dessa geração algo de que a nossa (sou dos anos 1980) foi privada: a vivência de que a família não acaba porque o casal se separou e que é possível ter uma vida “os meus, os seus, os nossos”, onde o fim do casamento possa trazer mais ganhos do que perdas: mais paz, mais vitalidade, mais exemplos de que é possível recomeçar e que o fim da relação não precisa ser o fim do respeito.

Mas como proceder quando esse terceiro é presente demais? Ex espaçoso, confuso com as agendas, excessivamente proativo, que gosta de pedir opinião pra decisões “vitais”. “Precisa mesmo ainda ter a chave da casa? Dividir a senha da Netflix? Precisa ser ele o cara que ainda dá as recomendações de onde investir o dinheiro?”, questiona o leitor. “Precisa desse ciúme? Achei que você fosse mais maduro…”, responde a namorada.

Isso produz um desmentido perigoso: quem sente algo real passa a duvidar da própria experiência, porque justamente quem você quer aproximar parece te afastar ao interditar sua fala (o que só aumenta a sensação de que há pouco espaço pra você). Afinal, como reclamar sem parecer inadequado? Como pedir espaço sem soar egoísta? Como nomear incômodo sem ser confundido com alguém que quer apagar a história anterior?

Não se trata de ciúme, muito menos de infantilidade. Trata-se de um excesso de presença concreta que invade o cotidiano. O paradoxo é que, quanto mais você tenta nomear isso de forma racional, mais é percebido como competitivo ou imaturo.

“Esta cova em que estás… é a parte que te cabe deste latifúndio”, canta Chico em sua cabeça, que te suga para uma espécie de revival do eterno excluído: você, temporão, ficava na casa da vó, enquanto os pais viajavam com os irmãos que vieram antes. Para você criança, restavam as ligações no jantar. Já seu eu adulto amarga jantares interrompidos por ligações do homem que veio antes de você, sempre com um assunto “importantíssimo”…

Infelizmente, percebo que a maioria de nós adota uma estratégia pouco produtiva ao tentar hiperracionalizar e construir um tratado de por que não faz sentido que o ex-marido dê palpite no roteiro de férias que ela fará com o atual e as crianças ou por que é preciso colocar limites na agenda confusa do ex e parar de aceitar todas as trocas de datas sem criar climão, com o argumento de estar investindo na construção de uma relação saudável pra todos (?!)

Na tentativa de fazer valer seu argumento, você mistura e sobrepõe incômodos de ordem prática, como a organização da agenda, com desconfortos mais simbólicos, como ela ter contado ao ex que foi promovida antes de contar a você —ela justifica que foi por acaso, porque ele ligou perguntando do moletom das crianças. O que, por si só, já te irrita: será que ele não pode ser um adulto minimamente funcional para organizar um armário sem supervisão? Mas, quanto mais você aponta os excessos, mais encontra falta de flexibilidade: “as coisas sempre foram assim”. E de repente você, e não ele, se torna o problema da relação.

Valido seu incômodo. Mas, apesar de ser sedutor localizar no ex a origem do mal-estar, a insatisfação raramente é sobre ele. O que está em jogo é a frustração de não encontrar um lugar que não precise disputar para existir. Voltamos à castração infantil: compartilhar o amor com aqueles que vieram antes ou depois e que ocupam espaço na vida deles. O seu espaço. Será que é o seu?

Enquanto tudo estiver no excesso do ex, você depende da redução dele para existir. E isso é da ordem do impossível. O problema não é o lugar do ex, mas a nossa sensação de não lugar. Por isso, o convite é sair da acusação para a proposição: do “ele tem espaço demais” para “eu preciso de um espaço onde a gente possa existir”.

Este é um novo espaço construído a dois e não conquistado do antigo oponente. Te convido a, como novo casal, criar rituais e rotinas como parte da agenda fixa e não como encaixes: um fim de semana na praia por mês que não dependa de negociações de última hora, por exemplo.

Em vez de seguir se incomodando com a eterna troca de mensagens sobre as sugestões de investimentos —afinal você poderia ajuda-la com isso—, respeite a escolha dela em seguir investindo nesse assunto como ponte de aproximação do pai das crianças e diversifique os campos de possíveis ganhos. Descubram juntos o que é de vocês: temas, interesses, territórios onde o vínculo se reconhece sem comparação.

Este talvez seja o movimento mais maduro e menos romântico: criar e cultivar um lugar próprio dentro da vida do outro sem precisar desmontar o lugar que já estava lá. Não é menos ele, é mais você e vocês.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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