Hélio Schwartsman: Levante-se e mate primeiro – 20/06/2026 – Hélio Schwartsman

Cinco homens em trajes formais e casacos discutem em torno de uma mesa com documentos, telefone antigo e um isqueiro. Ao fundo, mapas e um cartaz com a inscrição

O livro não é exatamente novo (2019) e tem mais de 800 páginas, mas me foi recomendado por um amigo cuja opinião valorizo muito. Foi por isso que dediquei parte de minhas férias a ler “Levante-se e Mate Primeiro”, de Ronen Bergman, uma história dos serviços secretos de Israel.

Não me arrependi. A leitura flui fácil. Combina histórias de espionagem com literatura filosófica sobre dilemas morais. É aceitável matar uma pessoa que prepara ataques terroristas contra civis? E se a ação contra o terrorista envolver vítimas inocentes?

Bergman, que é repórter investigativo, não produziu uma história oficial. Ao contrário, os serviços de inteligência dificultaram o trabalho do jornalista, mas ele teve acesso em off a agentes em várias posições hierárquicas e a políticos. Bergman detalha tanto operações de grande sucesso, como Entebbe, em 1976, como fracassos retumbantes, a exemplo do de Lillehammer em 1973, quando operativos do Mossad assassinaram nesta cidade norueguesa um piscineiro que confundiram com um dos comandantes do Setembro Negro.

O mérito do livro é mostrar como é fácil perder o controle. Em teoria, os assassinatos seletivos só seriam utilizados em situações em que preveniriam confrontos armados, que presumivelmente causariam um número muito maior de vítimas. Jamais poderiam acarretar a morte de não combatentes, mesmo que das fileiras dos adversários de Israel, e teriam de ser pessoalmente aprovados pelo premiê.

Às vezes, até funcionou assim, mas não foram poucas as ocasiões em que agentes se valeram de ambiguidades para impor sua agenda sem controle legal nem político. A situação só não foi muito pior porque, em Israel, mesmo entre os militares, vigora uma cultura em que é possível a subordinados contestar decisões de seus comandantes. Em cinco ocasiões, a Força Aérea sabotou, sob pretextos operacionais, ordens para derrubar aviões comerciais em que Iasser Arafat viajava.

O problema é que essas vozes contestatórias andam escasseando em Israel.


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Fonte ==> Folha SP

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