Igrejas também precisam de governança? Crescimento de estruturas religiosas amplia debate sobre gestão profissional

Iranilson Bonifácio

Estudos de Iranilson Bonifácio discutem como compliance, administração patrimonial e planejamento podem reduzir riscos sem substituir a missão espiritual das instituições

Templos, imóveis, funcionários, contratos, projetos sociais, contas bancárias e obrigações legais fazem parte da rotina de milhares de organizações religiosas. À medida que essas estruturas crescem, uma questão tradicionalmente associada às empresas começa a ganhar espaço também dentro das instituições de fé: como profissionalizar a administração sem transformar a missão religiosa em uma atividade meramente empresarial?

O tema é objeto de estudos publicados pelo brasileiro Iranilson Venceslau Bonifácio, que reúne formação em Gestão em Teologia e Recursos Humanos e direcionou parte de sua produção acadêmica à governança de organizações confessionais.

Em artigo publicado em 2024, Bonifácio analisou os desafios existentes entre a missão espiritual dessas instituições e a necessidade de sustentabilidade financeira. O trabalho defende que recursos materiais devem funcionar como instrumentos para a continuidade das atividades institucionais e que a administração patrimonial exige planejamento e responsabilidade.

O debate ganha relevância porque organizações religiosas podem administrar estruturas patrimoniais complexas sem necessariamente terem sido constituídas com uma cultura administrativa semelhante à de empresas.

Segundo o estudo, modelos baseados principalmente em relações pessoais de confiança podem se tornar insuficientes diante do crescimento patrimonial e das exigências jurídicas e administrativas.

Compliance entra na discussão

Em outro trabalho, Bonifácio abordou especificamente compliance e governança imobiliária em instituições confessionais, relacionando práticas de controle à mitigação de riscos e à melhor utilização de ativos.

Nesse contexto, compliance não significa apenas atender formalmente à legislação. A lógica envolve estabelecer procedimentos capazes de identificar responsabilidades, documentar decisões e diminuir a dependência de controles informais.

A discussão aproxima instituições religiosas de uma tendência já consolidada em empresas e organizações do terceiro setor: quanto maior a estrutura, maior a necessidade de estabelecer processos capazes de sobreviver à troca de lideranças. Isso significa separar confiança pessoal de controle institucional.

A profissionalização também pode funcionar como mecanismo de proteção da própria missão religiosa. Problemas envolvendo documentação de imóveis, contratos, obrigações administrativas ou planejamento financeiro podem comprometer recursos que originalmente deveriam financiar atividades religiosas, educacionais ou sociais.

Gestão além dos números

A formação de Bonifácio em Recursos Humanos acrescenta ao debate uma dimensão voltada às pessoas. Liderança e motivação, cultura organizacional, gestão por competências, negociação e resolução de conflitos estão entre as áreas que fizeram parte de sua formação superior concluída em 2026.

Esse encontro entre governança e comportamento aparece também em sua produção literária. Em “O Coração que Ouve”, o autor recorre à trajetória de Salomão para discutir discernimento, autoridade e consequências das decisões.

Embora pertençam a formatos diferentes, os trabalhos partem de um princípio semelhante: instituições não dependem apenas das intenções de quem as dirige; dependem também da qualidade das decisões, dos processos e das estruturas criadas para sustentá-las.

A discussão ajuda a deslocar um antigo antagonismo entre fé e gestão. Profissionalizar uma organização religiosa não significa necessariamente submetê-la à lógica empresarial. Pode significar justamente criar condições para que patrimônio, pessoas e recursos continuem servindo à finalidade para a qual a instituição existe.

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