Inteligência artificial avança na logística, mas empresas ainda falham ao ignorar a base operacional

Tecnologia sem dados organizados amplia riscos operacionais

A inteligência artificial deixou de ser uma aposta futurista e passou a ocupar espaço estratégico dentro da logística global. Pressionadas por margens menores, custos operacionais elevados, rupturas na cadeia de suprimentos e consumidores cada vez mais exigentes por entregas rápidas, empresas de transporte e supply chain estão acelerando investimentos em automação inteligente para ganhar eficiência operacional.

Segundo o relatório State of AI in Logistics 2025, produzido pela Pando em parceria com a JBF Consulting, 91% das empresas aumentaram seus investimentos em inteligência artificial nos últimos dois anos, enquanto 75% planejam ampliar ainda mais esses aportes até 2027. Apesar disso, o estudo revela um gargalo importante: 54% das organizações ainda estão na fase inicial de descoberta de valor da IA, sem escalar suas aplicações de forma estruturada. Além disso, 83% apontam baixa qualidade dos dados como principal obstáculo técnico para adoção da tecnologia.

O avanço da inteligência artificial na logística deixou de ser tendência e passou a gerar impactos concretos nas operações globais. Segundo relatório da The Business Research Company, o mercado global de IA aplicada à logística e supply chain deve saltar de US$ 34,04 bilhões em 2025 para US$ 47,92 bilhões em 2026, alta anual de 40,8%. O movimento já pressiona o setor: levantamento da Boston Consulting Group mostra que mais de 40% dos embarcadores globais já consideram capacidades de inteligência artificial na escolha de parceiros logísticos.

Na prática, os impactos já começam a aparecer nas operações. Reportagem publicada pela Business Insider mostrou que a empresa americana Net Zero Logistics reduziu de 30 a 40 para 16 a 20 rotas diárias após implementar um sistema de roteirização baseado em inteligência artificial, mantendo o volume de entregas e reduzindo custos operacionais.

Outra gigante do setor, a C.H. Robinson informou em 2025 uma queda anual de 12,6% nas despesas operacionais após ampliar o uso de inteligência artificial e automação em atividades como cotação, agendamento e rastreamento de cargas. Segundo a Reuters, a tecnologia ajudou a reduzir tarefas manuais e aumentar a produtividade, embora os resultados também estejam associados a medidas mais amplas de eficiência operacional.

Para Júlia de Macedo Soares da Silva, gerente de implantação de projetos de transporte e digitalização na Siemens Energy, o mercado vive uma mudança estrutural, mas ainda existe um erro recorrente entre empresas que tentam adotar IA sem revisar processos básicos.

“Existe uma falsa percepção de que inteligência artificial resolve problemas estruturais sozinha. Na prática, quando uma operação tem processos mal definidos, dados descentralizados e baixa integração entre áreas, a IA apenas acelera o caos operacional”, afirma.

Com formação em Ciência da Computação pela University of Central Florida e mestrado em Gestão de Engenharia pela mesma instituição, Júlia atua diretamente em projetos globais de transformação logística, implementação de plataformas digitais e integração entre áreas de tecnologia, engenharia e operações.

Segundo ela, o maior potencial da IA está na capacidade preditiva. “Hoje conseguimos usar inteligência artificial para antecipar atrasos logísticos, prever gargalos de transporte, identificar padrões de desperdício e otimizar rotas em tempo real. Isso muda completamente a lógica de atuação das empresas, que deixam de ser reativas e passam a operar de forma preditiva.”

A especialista afirma que o avanço da IA também muda o perfil profissional do setor logístico. “Durante muitos anos a logística foi vista apenas como operação física. Agora ela exige profissionais que entendam dados, tecnologia, automação e tomada de decisão estratégica. Segundo Júlia, o gestor logístico do futuro será cada vez mais híbrido.

No Brasil, o movimento também acelera. Segundo relatório da Information Services Group divulgado no fim de 2025, empresas brasileiras estão incorporando inteligência artificial e automação em operações de supply chain para ampliar eficiência, melhorar previsões de demanda, automatizar tarefas repetitivas e aumentar a visibilidade logística em tempo real. O estudo aponta que o país vem migrando de cadeias fragmentadas para ecossistemas logísticos cada vez mais digitais.

Apesar do entusiasmo, Júlia destaca que o avanço da IA não elimina o fator humano.

“Automação não substitui liderança. A tecnologia executa tarefas repetitivas com velocidade, mas decisões críticas ainda exigem análise humana, negociação e gestão de crises. As empresas mais competitivas serão aquelas que conseguirem equilibrar inteligência artificial com inteligência operacional”, conclui Júlia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *