A polarização divide o país. O pior de cada lado está exposto nos confrontos da política.
Existe outro caminho. A social-democracia inaugurada por Fernando Henrique Cardoso convidava ao diálogo.
A empatia era possível, e a política econômica e social da primeira metade dos anos 2000 fortaleceu a agenda iniciada na gestão FHC.
No primeiro governo Lula, parte dos ministros optou pelo diálogo com a social-democracia e continuou a agenda de reformas iniciada por FHC na política social e econômica. Bolsa Família e crédito consignado são alguns dos resultados. A política fiscal tornou-se ainda mais austera. O Banco Central teve autonomia para controlar a inflação.
No entanto, o governo Lula acabou por preferir fazer alianças com os partidos interessados em diretorias de estatais e em benefícios oportunistas; a política que na época se denominava “baixo clero”. Foram feitas ameaças a quem fazia oposição ao governo, além de pedidos de demissão dos técnicos que analisavam os problemas.
Houve momentos em que parte do tucanato —nunca FHC— contribuiu com a virulência e a polarização que interrompeu o debate, com teses de que o PT representaria organizações criminosas internacionais.
Na década seguinte, a polarização e a brutalidade se radicalizaram com Bolsonaro. Houve a mesma escolha de aliança com o centrão que governara com o PT. A intolerância, contudo, mudou de patamar. O governo exerceu o desprezo por quem era diferente. Não havia ciência. Muitos morreram.
FHC era diferente. Ele convidava à conversa sem discriminar o interlocutor, revelando a mágica da empatia.
Esse é o truque da boa política e da boa literatura. A política construtiva estabelece pontes entre interesses diversos. Convida à conversa quem defende teses distantes e procura encontrar pontes comuns que permitam o diálogo e a negociação. A ruptura deve ser rara e se basear em princípios, não em denúncias para angariar a militância.
A literatura nos apresenta vidas que, aparentemente, parecem-nos muito distantes. E, no entanto, acabamos encontrando no estranho algo nosso. A empatia e a curiosidade unificam a política e a literatura que se interessam pelo outro.
Hernán Rivera Letelier, chileno, escreveu “La Reina Isabel Cantaba Rancheras”.
O livro começa no leito de morte de Isabel Pacheco. Era a prostituta mais importante na região mineira do Chile, de onde se extraía sal.
As vozes dos que a conheceram vão se sobrepondo. Contam a história de Isabel e da vida nas minas no Atacama. Humor e dor se amalgamam nesse livro encantador.
Letelier sabe da escrita, mas nem tanto dos discursos. Em um Salão do Livro, coube-lhe ser o último a falar. Assustado, ligou o microfone e declarou: “Eu escrevo sobre putas. Sobre o que mais poderia escrever?”.
A história é contada por Manuel Alberto Valente em “O Outro Lado dos Livros”.
Valente é editor em Portugal e publicou crônicas com histórias deliciosas dos bastidores da literatura.
Certa vez, um recém-enriquecido tentou desesperadamente ser aceito em um clube exclusivo. Comprou um Rolls-Royce mais recente e convidou o presidente do clube para um passeio.
Seguro de si, afirmou: “Confesse que nunca tinha andado num carro destes…”. A resposta foi cirúrgica: “No lugar da frente, não”.
Os pequenos trechos permitem a ironia, refletem as personalidades, nem sempre agradáveis, mas compõem o enredo.
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E há os romances que compartilham uma vida para além dos chistes, com personagens que nos surpreendem com seus dilemas e suas angústias.
Existe ainda o outro lado. A literatura por vezes nos revela o lado oculto de pessoas que parecem familiares. Os segredos inesperados dos que são nossos vizinhos. Por vezes, quem parece próximo pula a cerca; e quem parece distante converge em um tema.
São muitas as histórias saborosas que Valente conta de autores, apesar da ressalva que recebeu de um professor ao se mudar para Lisboa e se tornar editor: “Os escritores são para se ler, e não para se conhecer!”.
Valente mostra que nem sempre é assim. A literatura encanta, os escritores, nem tanto, mas por vezes surpreendem.
As histórias de suas vidas parecem seguir os ditames de Robert McKee, que escreveu sobre roteiro de cinema como poucos. O seu clássico livro “Story” tem versão em português, com título no original. Vida que segue.
A mágica da literatura é tornar familiar o estranho, o estrangeiro. Podemos não saber a sua língua, estranhar os seus modos, e sermos esbofeteados pelos seus acessos que vão na contramão da nossa razão.
E, no entanto, dá-se o encontro. A literatura enfeitiçada permite entender um universo de pessoas e relações cotidianas que nos são, aparentemente, muito distantes.
Por isso, McKee enfatiza a distinção entre estereótipo e arquétipo.
Estereótipo caracteriza uma personagem com um traço dominante de comportamento facilmente reconhecível. Com uma frase curta define-se o tipo, como ocorre no humor ligeiro.
O arquétipo, na sua definição, revela temas, angústias e movimentos que permitem a compreensão. As dores das suas dúvidas refletem as circunstâncias do seu entorno e da sua história.
E, no entanto, a sua história peculiar, os conflitos, as angústias e as alegrias nos despertam a empatia. Esse é o encantamento da boa política e da boa literatura.
Parte do jogo é a crítica divertida. Para todos os lados.
Onésimo Almeida, professor da Universidade Brown, autor de “O Século dos Prodígios”, prêmio Guelbenkien da Academia Portuguesa de História, aprecia repetição da provocação já feita a muitos presidentes.
“Ouviram falar do incêndio de há dias em Mar-a-Lago, na Flórida? Digamos que não foi um grande incêndio, visto que se limitou à biblioteca de Donald Trump. Na verdade, tratou-se mesmo de um pequeníssimo incidente. Ainda assim, queimou-lhe os livros. Não escapou nenhum dos dois.”
Os tempos, contudo, desafiam a razão.
A polarização e a guerrilha dominaram a política. Cada extremo se acredita monopolista do bem. Assim começam as guerras.
O legado de FHC é o diálogo. Nem todos ouviram.
Para Alexei Bueno (1963-2026), que sabia de poesia e de prosa. Seus livros e coletâneas atravessam montanhas.
Fonte ==> Folha SP
