O dado já existia. E 474 produtores quebraram assim mesmo.

Caio Gachet

Recuperações judiciais no agro sobem 21,9% enquanto o Plano Safra corta quase R$ 30 bilhões de custeio. O gargalo do crédito rural deixou de ser preditivo e virou um problema de infraestrutura.

Por Caio Gachet

Entre janeiro e março deste ano, o agronegócio brasileiro acumulou 474 pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado no último dia 12. Entre produtores organizados como pessoa jurídica, o salto foi de 73,5%. A soja liderou, com 137 pedidos. Mato Grosso concentrou 135, mais de um quarto do total nacional.

Esses números costumam ser lidos como problema de ciclo: preço ruim, custo alto, juros caros. Tudo verdadeiro. Mas há um detalhe que desmonta a explicação fácil, os pedidos voltaram a crescer justamente enquanto a Selic caía. O Copom promoveu em 5 de agosto seu quarto corte consecutivo, levando a taxa a 14% ao ano. Se o problema fosse apenas o preço do dinheiro, a curva já teria virado.

O mesmo levantamento traz uma informação que quase ninguém comentou. A Serasa mostrou que o score médio dos produtores que acabaram pedindo recuperação judicial já era significativamente inferior à média rural três anos antes do pedido.

Leia de novo. Três anos.

O risco não era invisível. Era detectável, mensurável e, em boa parte dos casos, já estava dentro de alguma base de dados. Ainda assim, o crédito continuou fluindo, as garantias continuaram sendo aceitas e as operações continuaram sendo renovadas até o dia em que não deu mais.

É esse o ponto que quero defender: o gargalo do crédito no agro brasileiro deixou de ser um problema de predição e virou um problema de infraestrutura.

O paradoxo do Plano Safra

O Plano Safra 2026/2027 foi anunciado com R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, R$ 9 bilhões a mais que o ciclo anterior, alta de 1,7%. A manchete é de expansão.

O interior do número conta outra história. Custeio e comercialização caíram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões. Investimento subiu de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões.

Ou seja: cresceu o dinheiro para comprar máquina e construir armazém, e encolheu quase R$ 30 bilhões o dinheiro para plantar. Em um ano de alavancagem elevada e margens comprimidas, essa realocação não é detalhe técnico. É capital de giro saindo do sistema exatamente onde ele é mais escasso.

E antes que se atribua isso apenas à política pública: o mesmo movimento aparece no crédito privado, que já não é coadjuvante. O estoque de Cédulas de Produto Rural chegou a R$ 565 bilhões em maio, alta de 13% em doze meses, segundo o Ministério da Agricultura. Mas as novas emissões da safra recuaram 6%, de R$ 366,6 bilhões para R$ 343,9 bilhões. O estoque cresce por acúmulo; a originação nova desacelera.

Some a isso R$ 175,7 bilhões em CRA e R$ 62 bilhões em Fiagro distribuídos entre 247 fundos. Há capital privado sofisticado, com apetite e mandato, olhando para o campo.

Então por que ele está freando?

Não é aversão a risco. É aversão a opacidade.

Nenhum gestor decidiu que o agro brasileiro ficou ruim. Aconteceu algo mais simples e mais grave: ficou caro demais entender cada operação individualmente.

Para analisar um único produtor com rigor, é preciso cruzar produtividade histórica, imagem de satélite, série climática, comportamento de pagamento, posição de hedge, contratos de venda antecipada, logística de escoamento, cadastro ambiental, estrutura societária e exposição cruzada em outras tradings. Essa informação existe. Está fragmentada entre bancos, cooperativas, seguradoras, tradings, revendas de insumo, cartórios e registradoras.

Quando o custo de reunir essa informação supera o retorno esperado da operação, o alocador faz a única coisa racional disponível: exige mais garantia e sobe o spread. Não porque o risco aumentou, mas porque a incerteza aumentou. São coisas diferentes e o produtor brasileiro paga pelas duas.

O resultado é perverso. O bom produtor paga o preço do ruim. O produtor endividado rola dívida por três anos porque ninguém enxerga o quadro completo a tempo. E quando o quadro aparece, virou processo judicial.

O que a inteligência artificial de fato muda

Existe uma versão preguiçosa dessa conversa, que diz que a IA vai substituir garantia por dados. Não vai — e é bom que não vá. Alienação fiduciária, penhor de safra e CPR bem estruturada seguirão sendo a espinha dorsal do crédito rural, e quem promete o contrário está vendendo alguma coisa.

O que muda é outra coisa, e é maior.

Primeiro: o preço da garantia deixa de ser uniforme. Hoje, dois produtores com a mesma área e a mesma CPR pagam taxas parecidas mesmo tendo históricos operacionais radicalmente diferentes. Modelos que leem série temporal de produtividade, comportamento climático e disciplina de hedge separam o que a garantia sozinha não separa. Quem executa bem passa a ser remunerado por isso.

Segundo: a monitoração vira contínua. O crédito rural ainda é concedido com foto e acompanhado com álbum de recordações. Reprecificar risco mensalmente permite intervir antes da inadimplência, renegociar, reforçar garantia, ajustar limite. Recuperação judicial é a admissão de que ninguém percebeu a tempo.

Terceiro, e decisivo: o dado precisa circular. Um modelo excelente dentro de um único banco melhora aquele banco. O que destrava capital em escala é infraestrutura que permita que a mesma leitura de risco seja consumida simultaneamente pela trading que antecipa insumo, pela seguradora que precifica a apólice, pela securitizadora que estrutura o CRA e pelo fundo que compra a cota. É encanamento, não aplicativo.

Por isso a discussão sobre fintech no agro precisa mudar de eixo. A pergunta deixou de ser “qual app vamos lançar” e passou a ser “qual infraestrutura permite que mil operações de crédito rural sejam originadas, precificadas e distribuídas sem que cada participante refaça do zero a mesma análise”.

O paralelo com computação em nuvem é direto. Quase nenhuma empresa constrói o próprio data center hoje. Em dez anos, quase nenhuma construirá a própria arquitetura de risco e pagamentos.

O que espero ver até o Plano Safra 2027/2028

Uma previsão, para poder ser cobrada depois.

Até o próximo ciclo, o diferencial competitivo entre originadores de crédito agro não estará no custo de captação, esse é dado pela Selic e é praticamente igual para todos. Estará no tempo entre a solicitação e a decisão informada. Quem levar semanas para entender uma operação vai perder o produtor bom para quem levar dias, e ficará com o produtor que ninguém mais quis.

E a próxima onda de perdas do setor não virá do clima. Virá de exposição cruzada não enxergada: o mesmo produtor devendo simultaneamente a banco, revenda, trading e fundo, sem que nenhum deles veja o balanço consolidado.

A revolução digital do agro foi vendida com drone e trator autônomo. Ela vai se decidir em outro lugar: na velocidade com que o capital consegue distinguir um produtor do outro.

Caio Gachet atua nos mercados de tecnologia financeira e de comercialização de commodities agrícolas. As opiniões expressas são pessoais e não constituem recomendação de investimento, oferta de crédito ou aconselhamento financeiro. O autor tem interesses comerciais nos mercados analisados neste artigo.

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