O paradoxo da Odontologia brasileira: nunca houve tantos dentistas, mas acesso, formação e valorização ainda desafiam o setor

Arquivo pessoal

Com mais de 450 mil cirurgiões-dentistas registrados e o maior contingente profissional do mundo, o Brasil vive uma contradição entre excelência técnica, dificuldade de acesso e as pressões de um mercado em transformação. Autora de “O Lado Obscuro da Odontologia”, a cirurgiã-dentista Dra. Ana Paula Silva Ferreira propõe ampliar uma discussão que começa na universidade e chega à cadeira do paciente.

O Brasil nunca teve tantos cirurgiões-dentistas.

Em outubro de 2025, o país alcançou a marca de 450 mil profissionais registrados, segundo dados compilados pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) a partir dos 27 Conselhos Regionais. O próprio Conselho aponta o Brasil como a nação com o maior número de cirurgiões-dentistas do mundo.

O número impressiona. Mas revela apenas uma parte da história.

Ter centenas de milhares de profissionais disponíveis não significa que o acesso da população à saúde bucal esteja resolvido. Na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE, 34,5% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram não ter ido nenhuma vez ao dentista nos 12 meses anteriores à pesquisa. No mesmo levantamento, 19,4% relataram dor de dente nos seis meses anteriores.

É nesse aparente paradoxo — muitos profissionais, necessidades ainda não atendidas e um mercado cada vez mais complexo — que emerge uma discussão que vai além do sorriso.

Ela envolve acesso, formação profissional, prevenção, remuneração, condições de trabalho, ética, saúde emocional e até a influência das redes sociais sobre a forma como profissionais e pacientes passaram a enxergar a Odontologia.

E é justamente esse lado menos visível da profissão que a cirurgiã-dentista Dra. Ana Paula Silva Ferreira decidiu colocar em discussão.

Quando o sorriso esconde uma discussão maior

Cirurgiã-dentista, pós-graduada em Saúde Pública e escritora, Dra. Ana Paula transformou parte de sua experiência profissional em uma reflexão sobre os bastidores da área.

Em “O Lado Obscuro da Odontologia”, ela aborda a distância que pode existir entre a expectativa construída durante a graduação e determinadas realidades encontradas depois do diploma.

O livro parte de uma visão crítica da profissão, mas não pretende rejeitá-la. A autora afirma que sua intenção é discutir pressões, desigualdades, limites éticos, dificuldades relacionadas à formação e ao mercado e o impacto dessas questões sobre profissionais e pacientes.

Nas primeiras páginas da obra, Dra. Ana Paula descreve justamente a ruptura entre a expectativa do recém-formado e o início da vida profissional, abordando questões como insegurança, custos, competição e saúde emocional.

A proposta ganha relevância porque a discussão ocorre em um momento de expansão da própria categoria. Em junho de 2025, quando o país ainda contabilizava cerca de 441 mil cirurgiões-dentistas inscritos, o CFO registrava 149.346 especializações concluídas nas 24 áreas reconhecidas pelo Conselho. Poucos meses depois, o total de dentistas registrados ultrapassaria 450 mil.

O crescimento amplia a capacidade profissional do país, mas também levanta questões sobre formação, distribuição dos profissionais, inserção no mercado e capacidade do sistema de transformar oferta de mão de obra em acesso efetivo à saúde.

De um lado, milhares de dentistas. Do outro, brasileiros que ainda não chegam ao consultório

A contradição não é nova.

O próprio Ministério da Saúde reconhece que, historicamente, o acesso à saúde bucal no Brasil foi limitado e que muitas pessoas procuravam atendimento apenas quando a dor já estava instalada. Foi nesse contexto que surgiu, em 2004, a Política Nacional de Saúde Bucal, conhecida como Brasil Sorridente. Em 2023, a política passou a integrar formalmente a Lei Orgânica da Saúde.

Nos últimos anos, houve expansão da estrutura pública. O balanço federal de 2025 registra cerca de 1,2 mil Centros de Especialidades Odontológicas e 491 unidades odontológicas móveis entregues naquele ano; a previsão oficial era alcançar 800 novas unidades móveis em 2026.

A existência dessa estrutura, porém, não elimina desigualdades territoriais, econômicas e informacionais.

Para Dra. Ana Paula, é justamente aí que a Odontologia precisa deixar de enxergar a boca de maneira isolada.

“Muitos problemas encontrados no consultório começavam muito antes da cadeira odontológica: na falta de informação, na dificuldade de acesso, no medo e nas desigualdades sociais”, relata a cirurgiã-dentista ao explicar por que passou a direcionar parte de sua atenção à educação e à Saúde Pública.

Sua percepção encontra espaço em uma política pública que hoje coloca a Atenção Primária como porta de entrada para o cuidado odontológico no SUS, incluindo prevenção, restaurações, profilaxia, raspagem, pequenas cirurgias e atendimento de urgência.

O debate, portanto, não se resume à quantidade de dentistas. A questão é como fazer o conhecimento e a estrutura disponíveis chegarem a quem precisa deles.

Uma profissão que também precisa olhar para quem cuida

Existe ainda outro personagem nessa equação: o próprio profissional.

Em seu livro, Dra. Ana Paula relata experiências difíceis vividas durante sua formação e início da carreira. Fala de custos para estudar, pressão financeira, jornadas extensas e da percepção de uma distância entre aquilo que imaginava encontrar depois da graduação e determinadas situações que afirma ter presenciado no mercado.

Em outro trecho, descreve condições precárias que afirma ter encontrado em clínicas populares, incluindo agendas excessivamente carregadas e limitações de materiais. Esses episódios devem ser entendidos como relatos pessoais da autora, e não como retrato de toda a Odontologia brasileira.

A distinção é importante. O Brasil possui universidades reconhecidas internacionalmente, produção científica relevante e uma estrutura odontológica de grande dimensão. Ao mesmo tempo, discutir problemas existentes dentro de uma profissão não significa desqualificá-la.

É justamente esse ponto que Dra. Ana Paula procura estabelecer.

“A intenção não é atacar a Odontologia, mas contribuir para que ela seja mais consciente, humana e responsável”, afirma.

Para ela, reconhecer fragilidades faz parte do amadurecimento profissional.

O dentista que o Brasil está formando

A formação dos novos profissionais também voltou ao centro do debate nacional em 2026.

Em julho, o CFO se posicionou publicamente contra a oferta da graduação em Odontologia na modalidade de Educação a Distância durante uma consulta pública do Conselho Nacional de Educação. Segundo a entidade, a formação odontológica exige preparação técnico-científica, prática supervisionada, contato com pacientes e desenvolvimento de habilidades manuais, aspectos que, na avaliação do Conselho, demandam formação presencial.

Para Dra. Ana Paula, essa discussão tem uma dimensão pessoal. Ela cursou Odontologia durante o período da pandemia e relata no livro a mudança abrupta provocada pela adoção do ensino remoto naquele contexto. Segundo sua narrativa, atividades que deveriam proporcionar determinadas experiências presenciais precisaram ser adaptadas, enquanto estudantes e professores enfrentavam uma situação inédita.

Quando as atividades clínicas retornaram, outro tema passou a ocupar espaço em sua percepção da profissão: biossegurança.

Dra. Ana Paula descreve esse período como decisivo para compreender que Odontologia envolve exposição biológica, protocolos e responsabilidade sobre a segurança do paciente e do próprio profissional.

Hoje, ao falar sobre a formação das próximas gerações, ela defende um modelo que não se limite à execução de procedimentos.

“Gostaria de ver uma formação que integre ainda mais ciência, prática, comunicação, saúde pública, ética e saúde emocional”, afirma. Para ela, o futuro profissional também precisa desenvolver raciocínio clínico, reconhecer seus limites e compreender desigualdades sociais.

Quando o Instagram entra no consultório

Há ainda uma transformação que nenhuma geração anterior de dentistas enfrentou na mesma intensidade: as redes sociais.

Procedimentos odontológicos e estéticos ganharam enorme exposição digital. Resultados são apresentados em vídeos curtos, fotografias de antes e depois e conteúdos produzidos para conquistar atenção em poucos segundos. Nesse ambiente, saúde, estética e publicidade podem se misturar.

Dra. Ana Paula considera a desinformação um dos novos desafios da profissão. Ela cita conteúdos que apresentam soluções rápidas, receitas caseiras para clareamento, utilização inadequada de substâncias abrasivas e resultados estéticos apresentados sem explicação suficiente sobre riscos e limitações.

Para ela, existe uma diferença fundamental entre popularidade digital e autoridade científica.

“Popularidade e número de seguidores não substituem evidência, ética e responsabilidade profissional”, afirma.

O alerta ajuda a deslocar uma discussão frequentemente centrada no profissional para outro personagem essencial: o paciente. Um sorriso visualmente perfeito não é necessariamente sinônimo de saúde.

Antes de ser dentista, ela esteve do outro lado da cadeira

A preocupação de Dra. Ana Paula com essa dimensão do cuidado tem raízes anteriores à sua graduação.

Sua decisão de seguir a Odontologia foi influenciada pela experiência dentro da própria família. Ela relata ter acompanhado o sofrimento dos pais com a perda dos dentes e percebido como a saúde bucal poderia afetar alimentação, autoestima e qualidade de vida.

Mas também viveu pessoalmente a experiência de ser paciente.

Dra. Ana Paula sofria de apneia do sono e atribui ao cirurgião bucomaxilofacial Thiago Westphal o diagnóstico e o tratamento que culminou em uma cirurgia ortognática. Para ela, conseguir dormir melhor depois do procedimento mudou sua percepção sobre o alcance da Odontologia.

Anos depois, já profissional, uma experiência aparentemente pequena reforçaria essa visão. Pouco antes de se mudar para os Estados Unidos, Dra. Ana Paula conta que uma funcionária da limpeza pediu que ela avaliasse uma alteração no sorriso. A mulher não teria condições financeiras para realizar o procedimento. Mesmo com a agenda encerrada, Dra. Ana Paula decidiu atendê-la.

A história adquiriu significado especial porque a dentista relacionou aquele atendimento a algo que não conseguiu fazer antes da morte do próprio pai: devolver a ele o sorriso que gostaria.

“Embora eu não possa ajudar todas as pessoas, posso transformar a vida de alguém quando a oportunidade está diante de mim”, recorda.

É uma história individual, mas que ajuda a compreender uma discussão coletiva. Porque saúde bucal não se limita à ausência de cárie. Ela interfere na alimentação, fala, interação social e na maneira como o indivíduo se percebe.

A boca não está separada do restante do corpo

Essa mudança de perspectiva também aproxima a Odontologia de um conceito cada vez mais presente na Saúde Pública: integralidade.

Para Dra. Ana Paula, tratar a saúde bucal como um universo separado do restante do organismo pode fragmentar o atendimento. Em sua avaliação, inflamações, infecções, medicamentos, doenças crônicas e outros fatores podem apresentar relações relevantes com manifestações bucais, tornando necessária a comunicação entre diferentes áreas da saúde.

O próprio desenho atual do Brasil Sorridente segue essa lógica ao integrar equipes de Saúde Bucal às equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária.

Isso muda também o significado da prevenção. Em vez de esperar a doença se instalar para iniciar o tratamento, a Atenção Primária trabalha com educação, acompanhamento, diagnóstico precoce e procedimentos preventivos.

É uma mudança simples no conceito, mas profunda no resultado: o melhor procedimento pode ser aquele que nunca precisou ser realizado porque o problema foi evitado.

Do Brasil aos Estados Unidos: o desafio de começar novamente

A trajetória de Dra. Ana Paula ganhou recentemente um novo capítulo.

Depois de construir sua formação no Brasil, Dra. Ana Paula se mudou para os Estados Unidos, onde atualmente vive uma nova etapa de aprendizado e desenvolvimento. Como estudante, tem buscado ampliar sua formação por meio de pesquisas, experiências voluntárias, intercâmbio de conhecimento com profissionais da área e aproximação com o ambiente acadêmico. O contato com um novo idioma, outra cultura e diferentes perspectivas da Odontologia a colocou novamente na posição de aprendiz.

“Recomeçar não apaga a trajetória anterior; amplia competências e prepara novos caminhos”, afirma.

A experiência também ampliou seu interesse por comunicação científica, educação em saúde e produção acadêmica. Entre seus próximos projetos estão a continuidade de sua formação, o desenvolvimento de novos projetos acadêmicos e profissionais e a produção de conteúdos educativos.

Nesse percurso, a escrita tornou-se outra extensão da profissão. “O Lado Obscuro da Odontologia” nasce justamente da tentativa de transformar experiências individuais em perguntas coletivas.

Não para determinar que a experiência de uma profissional seja a experiência de todos os dentistas brasileiros, mas para colocar sobre a mesa assuntos que frequentemente ficam fora das fotografias de sorrisos perfeitos.

Afinal, o que significa ter 450 mil dentistas?

Talvez essa seja a pergunta mais importante.

O número pode ser interpretado como demonstração da dimensão e da tradição da Odontologia brasileira. Mas, isoladamente, não responde às questões fundamentais.

Onde estão esses profissionais? Quem consegue chegar até eles? Como estão sendo formados? Em quais condições trabalham? Quanto espaço existe para prevenção? E como garantir que a pressão econômica, tecnológica e estética não ultrapasse os limites da ética e da segurança do paciente?

O Brasil vem ampliando sua rede pública. O Ministério da Saúde mantém equipes de Saúde Bucal na Atenção Primária, unidades móveis e uma rede de atendimento especializado justamente com o objetivo declarado de aumentar o acesso e reduzir desigualdades.

Ao mesmo tempo, o país continua formando novos profissionais e discutindo qual deverá ser o modelo de ensino das próximas gerações.

É nesse encontro entre quantidade, acesso e qualidade que estará parte do futuro da Odontologia brasileira.

Para Dra. Ana Paula Ferreira, esse futuro exige algo que não aparece nas estatísticas: capacidade de olhar criticamente para a própria profissão.

No questionário que resume sua trajetória, ela define o legado que pretende construir como o de uma Odontologia “tecnicamente responsável, acessível e humana” — uma profissão em que ciência, ética, comunicação e compromisso social consigam caminhar juntas.

Em um país com centenas de milhares de dentistas, talvez o próximo grande avanço não esteja apenas em ter mais profissionais. Esteja em descobrir como fazer todo esse conhecimento chegar, com qualidade e responsabilidade, a quem ainda precisa dele.

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