O tempo não é linear, diz a física quântica. O luto não é linear, afirma a psicanálise. E a minha mãe, o que diria pra mim? Há dias em que a saudade dói mais. Dias em que o silêncio deixado pela falta dela faz ecoar medos e desamparos que se multiplicaram quando ela se foi. O Dia das Mães é, pra mim e pra muitos, um desses dias em que a ausência se faz dolorosa e amorosamente presente. Que falta ela faz…
Perdi minha mãe aos 5 anos mas sinto que todo mundo que perde a mãe —aos 5 ou aos 55— se vê criança desamparada, sem ter pra onde correr pra se acolher, descansar, desaguar. E tem momentos da vida em que faz falta esse colo pra descansar e ouvir aquelas falas de “vai ficar tudo bem” e “eu entendo você”. Ela… Que entende a gente quando nem a gente se entende. Perder a mãe é perder a tradutora do afeto. É perder a fonte primordial de amor. É deixar de ser filho pra ser “gente grande” lançada no trapézio da vida sem rede de proteção.
Perder a mãe é perder a ilusão de que existe um lugar 100% seguro. Um lugar de completude que sabemos não existir mas que, com ela, reaparecia como colo, cobertor quentinho, toque suave dos dedos fazendo cafuné. Pequenos gestos que abriam portais para aquela sensação primeva de completude.
Freud aponta que no início o bebê não diferencia o mundo de si mesmo, vivendo a mãe como sua extensão. Ela é nosso primeiro espelho: nos entendemos a partir dos olhos da mãe. Perdê-la é, assim, perder um pouco da gente. É perder a sensação de ser suficiente pra alguém ficar. O vazio da mãe esvazia o eu.
Perder a mãe é também perder um pouco da ingenuidade e duvidar da capacidade de estar só. Winnicott nos ensinou que aprendemos a estar só na presença de alguém e que o primeiro espaço de acolhimento é o colo materno.
A mãe não apenas ampara fisicamente o bebê, mas também oferece um espaço psíquico, emocional e simbólico, no qual a criança pode sentir-se segura para explorar, sentir e existir. “É a partir da confiança na mãe que a criança aprende a confiar no mundo”. Sem ela a gente desconfia da gente e do mundo.
Sem rede de segurança, nos seguramos nas lembranças mas, por mais que eu reveja em looping os vídeos em família gravados nos anos 1980 por aquele casal apaixonado que eram meus pais, me dói lembrar que sem ela eu também perdi a capacidade de descansar.
“Sua mãe estava muito doente, ela foi descansar” disse meu pai a seus dois filhos no colo —eu tinha 5, meu irmão 3. Quietos nos abraçávamos sentindo as lágrimas rolarem naqueles três rostos cúmplices de uma partida prematura. Acho que toda morte de mãe é prematura.
Nicole Kidman contou que, ao perder a mãe, ouviu: “ela já tinha 84. Vocês viveram muito juntas”. E respondeu: “mas era a minha mãe e eu era sua menina”. A atriz conta ainda que em uma das últimas conversas, ouviu da mãe: “descansa, cuida de você”. De novo, o descansar.
Com muitos anos de análise entendi que, pra mim, descansar era morrer. E que sem mãe e sem conselho de mãe, fui aprendendo a “fazer por merecer”. A fazer, fazer, fazer. Pra não dar trabalho ao pai recém viúvo, pra não correr o risco que o silêncio da falta me paralisasse ou afastasse os outros.
A última coisa que quem perdeu a mãe quer é parecer coitado. É dizer que um amor faz falta. Mas em silêncio a gente chora, tem pena da gente, sente saudades, medo, e vontade de pedir colo. Mas não pede. Não queremos pesar, não queremos perder. Como a gente já perdeu tudo, dá muito medo de perder tudo de novo. Então estreitamos sonhos, engolimos o choro, sentimos, nos culpamos, nos calamos. Cuidamos dos outros sem deixar que cuidem da gente.
Mas, por dentro, há o peso, o eco e uma espécie de eterno presságio da perda iminente, que novamente deixam nosso desamparo em carne viva. Quando estamos frágeis, antecipamos a dor como se pudéssemos evitá-la prevendo o pior. Freud diz que o desamparo infantil é a matriz da angústia, reativada como medo de perder o objeto amado. Ao tentar controlar, repetimos. Assim, o trauma não é apenas lembrado, mas esperado e revivido.
Às vezes, numa tentativa inconsciente de manter essa mãe por perto, nos tornamos cúmplices da falta. Como se permanecer na dor fosse uma forma de permanecer com ela. Mas ainda assim ela não está lá. Nem nós. Nem possíveis novos amores que interditamos prematuramente tentando poupar a dor de mais uma perda prematura.
Parece que nunca mais vai ficar tudo bem. Não quero soar fatalista. A gente vai ser feliz, honrar os aprendizados e se conectar pelo amor e não só pela dor. Mas a falta dela sempre vai fazer falta. Eu sei, eu sinto. A falta da mãe não se supera, se cuida.
Há um buraquinho na gente. E poder nomeá-lo, sem tentar resolver, é precioso. O luto vem em ondas. Acolha-o. Que você possa se tratar com a mesma delicadeza que um dia recebeu. Lembrando que ela nos incentivaria a descansar, a sonhar e a desaguar em lágrimas quando a emoção transborda. Se a falta fizer mais falta esses dias, saiba que você não está só. Vai ficar tudo bem. Eu entendo você.
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Fonte ==> Folha SP

