Quando um ator interrompe “Macbeth” em um de seus momentos mais significativos — após um membro da plateia colocar os pés no palco — o teatro deixa a Escócia medieval e assume a função de documentário do Brasil de hoje. A cena de abertura de “Sete Minutos” é o desvendamento do pacto silencioso que ajuda a sustentar a arte dramática.
Ao deslocar a ação do palco para o camarim após tosses, barulhos embalagens de comida e celulares, a peça transforma os bastidores em um tribunal, onde o que é julgado não é o espetáculo, mas nossa constante incapacidade de ouvir. O riso provocado serve como um espelho desconfortável.
O espectador que exige entretenimento, a mulher que justifica o atraso exemplificam hábitos reais das plateias contemporâneas. A produção faz o público se ver nela, realizando uma autoanálise sobre maneiras e civilidade. Antonio Fagundes assume exclusivamente a direção na produção de 2026, entregando o papel principal, que já foi dele, a Norival Rizzo.
A distância calibra o timing da comédia e deixa o argumento central se desenrolar. O elenco de apoio, com Walter Breda, Fábio Espósito, Ana Andreatta, Conrado Sardinha e Natália Beukers, dá suporte a essa transição, que coincide com o agravamento da dispersão humana.
Se nos anos 2000 o título da peça aludia aos sete minutos de atenção contínua dedicada pelas pessoas a uma atividade, o cenário atual de telas e redes sociais reduziu essa capacidade para poucos segundos, transformando o espetáculo em uma reação direta contra a pressa digital.
A estrutura de produção reflete o discurso de independência defendido em cena. Viabilizado pela atriz e produtora Natália Beukers (fundadora do portal Infoteatro), o espetáculo adota o modelo de bilheteria direta, sem o uso de leis de incentivo fiscal ou editais públicos. Essa escolha, que repete a prática mantida por Fagundes desde a década de 1980, testa na prática a viabilidade econômica do teatro independente no Brasil e propõe uma relação mais direta com o público.
O cenário de Fábio Namatame destrói a paisagem sombria de Macbeth para criar um camarim realista e a iluminação de Domingos Quintiliano troca o expressionismo original por uma luz fria que revela o cansaço do elenco. Jonatan Harold integra ruídos urbanos no design de som, ecoando na acústica do novíssimo Cultura Artística.
Finalmente, “Sete Minutos” mostra mudanças na recepção cultural. A narrativa muitas vezes reduziu questões sobre tempo e silêncio a uma peculiaridade pessoal de Fagundes, apenas mencionada por jornalistas. O renascimento do texto, corroborado por sua inclusão em um livro, rebate esse esvaziamento. Insistir no silêncio e em chegar antes do início do espetáculo não é um capricho, mas uma condição para manter o teatro como um reino de atenção mútua.
Três perguntas para…
… Natália Beukers
A peça discute a perda de atenção em um mundo dominado por telas e algoritmos. Sendo você de uma geração mais jovem do que a do Fagundes e do Norival Rizzo, como enxerga essa “crise dos sete segundos” descrita no texto?
A sensação que tenho é a de ter nascido já imersa na “crise dos sete segundos”. Por isso, talvez seja mais difícil perceber com clareza o tamanho dela. Ao mesmo tempo em que minha geração cresceu nesse mundo hiperconectado, também somos a geração que conhece os efeitos nocivos desse excesso de conexão.
O que mais me aflige é essa sensação de que precisamos estar disponíveis 24 horas por dia. Tenho muita dificuldade em responder mensagens de WhatsApp, e muita gente já ficou chateada comigo por isso. Às vezes me pergunto: sou eu que estou errada ou os aplicativos realmente passaram a dominar nossas vidas?
Nesse sentido, o teatro se tornou, para mim — não só como atriz, mas também como espectadora — um verdadeiro respiro. É lá que consigo parar e refletir sobre o momento presente. Além disso, o teatro é uma poderosa ferramenta para exercitar a atenção plena; é o melhor remédio para aliviar a vida atribulada que levamos hoje. Como escreveu Fagundes no texto de “Sete Minutos”: “nossas peças duram mais do que sete minutos. E fazemos assim porque achamos que ainda é possível ficarmos juntos por mais tempo”.
O Infoteatro nasceu como um portal de comunicação e cobertura da cena cultural. Como a sua bagagem como comunicadora e observadora do mercado teatral moldou o seu olhar como produtora de fato nesta montagem?
A oportunidade de trabalhar com grandes atores e com Antonio Fagundes surgiu a partir do Infoteatro e dos últimos seis anos de trabalho intenso na comunicação teatral. Quando criei o portal, minha principal intenção era aproximar as pessoas do teatro. Com o tempo, percebi uma lacuna: muitas pessoas não sabiam quais peças estavam em cartaz nem onde encontrar informações para comprar ingressos. Foi daí que surgiu a necessidade de criar o guia de peças do Infoteatro.
Toda a bagagem adquirida nesses anos foi essencial para perceber que “Sete Minutos” deveria ser produzida pelo Infoteatro, justamente por tratar da formação de público. Apesar de ser uma comédia muito engraçada, a peça também é bastante provocativa e faz o espectador refletir sobre seu tempo de atenção e sobre sua relação com o teatro.
A peça faz uma crítica ao esvaziamento da análise teatral nos grandes jornais. Como você enxerga o papel das novas plataformas independentes de teatro nesse debate? É possível resgatar a densidade da crítica na internet?
Acredito que as plataformas independentes cumprem um papel fundamental na análise teatral de hoje. A informação já não é mais concentrada: hoje existem muitos formadores de opinião. Na verdade, todos expõem suas opiniões com muita facilidade nas “internets da vida”, muitas vezes sem responsabilidade sobre as palavras proferidas. Nesse sentido, essa amplitude de informações pode ser negativa.
Por outro lado, o cenário também se tornou mais democrático. Pessoas que, durante gerações, não tiveram o direito de expor sua voz, hoje têm espaço para falar. Grandes críticos do nosso teatro, como Bárbara Heliodora, Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, deixaram análises aprofundadas que servem até hoje como material de estudo sobre o teatro daquela época.
Atualmente, por mais que existam críticos competentes, o alcance de suas análises está diluído — assim como tudo nos tempos dos algoritmos. O Infoteatro surge justamente com o intuito de facilitar essa busca e preencher essa lacuna. Lá, você encontra todas as informações para assistir a um bom espetáculo.
Teatro Cultura Artística – Rua Nestor Pestana, 196 – Consolação, região central. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 1º/8. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em culturaartistica.org
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Fonte ==> Folha SP
