Tchernóbil, 40, e a turbulência global – 26/04/2026 – Opinião

Tchernóbil, 40, e a turbulência global - 26/04/2026 - Opinião

Dos últimos dias até este domingo (26), 40º aniversário de Tchernóbil, o pior desastre nuclear da história da humanidade, o tom que emana dos noticiários mantém-se o mesmo. Em todo o lado, a intenção é neutralizar o impacto implacável da explosão que abalou o reator número 4 da Central Nuclear de Tchernóbil, a 26 de abril de 1986, e suas consequências. Assim, abundam notícias sobre pesquisas acerca da maravilhosa adaptação genética e resistência ao cancro dos lobos que habitam a área contaminada por radiação, ou sobre estranhos fungos (Cladosporium sphaerospermum) que se alimentam de radiação, transformando uma ameaça em fonte de alimento.

Embora a estratégia de tranquilizar o público sobre a resiliência da vida animal, vegetal e fúngica face a elevadas doses de radiação não seja, obviamente, nova, o contexto político do sombrio 40º aniversário de Tchernóbil é sem precedentes. Desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, tem sido notícia por outro motivo: a chantagem nuclear.

Foi no contexto de tal chantagem que a estrutura de contenção, erguida sobre o reator explodido, foi rompida em consequência da atividade militar russa. Um drone colidiu com o escudo protetor do Novo Confinamento Seguro (NSC), provocando um incêndio e abrindo um buraco no seu teto. Tal como confirmado pela equipa da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) da ONU, em dezembro de 2025, o escudo tinha perdido as suas funções de segurança, incluindo a capacidade de confinamento. Um desastre espreita por detrás do outro.

Os aniversários são momentos de reflexão, de olhar retrospectivamente para o caminho já percorrido e contemplar o futuro de uma vida, de uma carreira, de um casamento. O aniversário de um desastre nuclear não é exceção neste sentido.

Em primeiro lugar, a distinção entre o “átomo pacífico” (utilizado apenas para a produção de energia) e as armas atómicas de destruição maciça desfaz-se. Certamente, a distinção sempre foi tênue, principalmente devido às origens militaristas em que o processo de fissão atômica está imerso. Agora, porém, a militarização é absoluta, abrangendo, entre outras coisas, as centrais nucleares e os depósitos de energia destinados exclusivamente a fins industriais ou civis.

Em segundo lugar, seja ilusória ou real, a mitigação dos riscos relacionados com os métodos de produção de energia nuclear contrasta com os riscos políticos exponencialmente crescentes que envolvem a infra-estrutura relevante nos contextos geográficos ou locais imediatos em que está inserida. Além disso, os riscos ecológicos são alvo de uma minimização ideológica através de inúmeros estudos sobre o regresso da vida selvagem ao epicentro da catástrofe e às suas proximidades.

Em terceiro lugar, e de forma bastante trágica, as graves perturbações no fornecimento de petróleo e gás relativamente baratos, devido às guerras no Leste Europeu e no Oriente Médio, estão a levar os países europeus a rever as suas políticas de energia nuclear. À luz das duas primeiras conclusões, essa tendência conduz a uma espiral de riscos mutuamente reforçados, que se descontrolam ainda mais.

Em quarto lugar, o pressuposto predominante é que o paradigma energético extrativista, que inclui a energia nuclear ou atômica, é o único possível. Embora as descontinuidades entre os tipos de energia fóssil, nuclear e até mesmo certas energias “renováveis” venham ao de cima, uma continuidade básica entre elas desaparece da vista do público: cada um dos modos de obtenção de energia é extrativista.

Os combustíveis fósseis são extraídos da terra e os subprodutos da sua combustão são liberados para a atmosfera. As turbinas eólicas e as baterias de lítio continuam a depender da extração de metais e transpõem a mesma estrutura antiga para o mundo dos elementos: a água e o ar, sobretudo.

E a energia nuclear? Leva a lógica do extrativismo ao seu auge: a energia é extraída da fissão do átomo, da extração de uma potencialidade pura (e altamente letal) de minúsculos fragmentos da realidade. Em cada caso, os processos são análogos: romper, fragmentar o todo para se apropriar do potencial que ele contém, deixar os detritos para trás, obstruindo com eles o mundo vivo e ainda habitável.

O paradigma energético dominante é, pois, o da guerra, o da conquista de objetivos através da violência e da destruição. Ou, parafraseando Carl von Clausewitz, a guerra é a continuação da extração de energia por outros meios.

Em 2026, Tchernóbil representa a condensação das contradições e das intuições ocultas que transcendem em muito o desastre ali ocorrido quarenta anos antes.


TENDÊNCIAS / DEBATES

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Fonte ==> Folha SP

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