Donald Trump pode até parecer um presidente incontornável e imbatível dentro do seu campo político, mas o cientista político alemão Marcel Dirsus o vê de outra forma. Para ele, autor do livro “Como os Tiranos Caem” (Rocco), recém-lançado no Brasil, o republicano será traído por aliados no momento em que deixar de ser um ativo eleitoral, e esse cenário pode não estar longe de acontecer.
Trump se vê em um ciclo vicioso composto pelos efeitos da guerra no Irã, das tarifas e de uma característica típica de ditadores estudados pelo autor: a de criar uma atmosfera de medo que termina por obscurecer quem é de fato seu aliado ou está prestes a traí-lo.
“É bem possível que Trump cave sua própria cova. Porque ele se cerca de pessoas que dizem o que ele quer ouvir, ele comete mais e mais erros. Isso o faz menos popular e, como resultado, seus aliados começam a traí-lo”, afirma.
No livro, lançado em inglês, em 2024, e que pode ser interpretado como uma espécie de manual contra regimes autoritários, Dirsus explora episódios da Rússia imperial à morte de Muammar Gaddafi na Líbia, em 2011, para encontrar facetas comuns da ascensão e da queda de tiranos —e as diferenças deles para líderes em democracias liberais.
Entre elas estão a necessidade de achar um equilíbrio constante entre agradar as elites que os cercam, mas sem fortalecê-las demais, assim como fragmentar o poder das Forças Armadas para evitar golpes internos, sob o custo de exagerar no enfraquecimento da defesa externa.
“Líderes em democracias não são anjos, não necessariamente amam seu povo. Mas, diferentemente de ditadores e de figuras autoritárias, eles têm um interesse muito forte em entregar ao menos algo de bom para eleitores porque precisam ser reeleitos. São incentivos drasticamente diferentes”, afirma.
O sr. aborda em seu livro os dilemas de um tirano, um dos quais consiste em como eles devem alimentar uma atmosfera constante de medo, e como isso acaba afastando críticas justas e obscurecendo quem é leal, quem não é. Pensei nas reuniões de gabinete de Trump, que parecem exercícios para inflar o ego do presidente. Quem o sr. acha que será o primeiro a traí-lo?
As reuniões de gabinete de Trump têm uma vibe norte-coreana, parecem mais Pyongyang do que Washington. E isso é extremamente perigoso, porque se você é tão poderoso, quer pessoas ao seu redor que te digam a verdade. Talvez não em público, mas pelo menos reservadamente, e parece que isso não está acontecendo.
Isso torna muito mais provável que ele cometa esses erros catastróficos que acabam prejudicando não apenas os Estados Unidos, mas também a si mesmo.
Acho também que temos essa imagem de Trump como sendo uma figura parecida com um rei, que não pode ser parado, e que os republicanos vão apoiá-lo não importa o que aconteça. Isso é verdade para uma parte da base, mas, entre republicanos poderosos, não é.
Eles o apoiam em grande parte não porque acreditam nele, mas porque veem vantagem nisso. Esse apoio a Trump dá poder a eles ou melhora suas chances de reeleição.
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Mas, no momento em que isso não for mais o caso, quando esses congressistas avaliarem que Trump é um passivo eleitoral, eles vão virar as costas para ele. Vão traí-lo imediatamente.
Muitos votaram em Trump porque a vida não estava mais acessível. E agora ele começou essa guerra [no Irã] que já aumenta os preços de tudo, sem contar as tarifas, que estão apenas prejudicando os americanos comuns.
Em parte alimentado por isso, em parte por estar cercado por bajuladores, há uma boa chance de que Trump cave a própria cova. Porque ele se cerca de pessoas que dizem o que ele quer ouvir, ele comete mais e mais erros. Isso o faz menos popular, e, como resultado, seus aliados começam a traí-lo.
Viktor Orbán, premiê da Hungria derrotado nas eleições, tinha todas as ferramentas para não deixar o poder. Por que o sr. acha que ele reconheceu a derrota?
Eu diria que as eleições na Hungria e a derrota de Orbán mostram que democratas ainda podem vencer. Isso me dá muitas razões para otimismo.
Vi algumas pessoas que dizem “bem, isso deve significar que Orbán não era tão ruim assim”. Não é isso. A oposição venceu apesar de Orbán e de todas as suas tentativas de desmontar a democracia húngara. Só porque venceram não significa que Orbán não era uma figura autoritária.
Eu acho que Orbán esbarrou em um problema que muitos autoritários enfrentam: frequentemente, eles não são muito bons em governar e são bastante ruins em entregar resultados para os eleitores. Isso é algo que é ainda pior em ditaduras, mas nesses casos os tiranos podem contornar isso abolindo eleições livres e justas.
Agora, no caso da Hungria, você tinha eleições; elas não eram justas, mas eram eleições. E isso foi uma combinação mortal para Orbán. Ele era autoritário o suficiente para cometer todos esses erros e tornar a vida de muitas pessoas miserável, mas não tinha ido tão longe em desmantelar a democracia húngara de modo que pudesse se tornar isolado da vontade do povo.
Na introdução do livro, o sr. diz que tiranos são, em sua maioria, incapazes de forjar relações tão fortes quanto líderes democráticos porque eles têm relações muito mais transacionais entre si do que baseadas em valores. Mas, por um lado, Orbán se tornou um ícone de líderes com mentalidade semelhante e, por outro, democracias têm sustentado governos autoritários por razões bastante transacionais. Como avalia isso?
Enquanto Orbán estava no poder e enquanto ele era útil para figuras como Trump e [Vladimir] Putin, eles eram bons amigos. Mas tanto o Kremlin quanto Trump se distanciaram rapidamente de Orbán. Isso é bastante típico em ditaduras: quando começa a perder, você realmente perde, e corre o risco de não só deixar o poder, mas perder também sua liberdade ou sua vida.
Acho muito difícil para líderes autoritários forjar relacionamentos pessoais porque, de novo, eles não estão interessados em servir a população. Líderes em democracias não são anjos, não necessariamente amam seu povo. Mas, diferentemente de ditadores e figuras autoritárias, eles têm um interesse muito forte em entregar ao menos algo de bom para eleitores porque precisam ser reeleitos. São incentivos drasticamente diferentes.
Há muitas dessas figuras autoritárias de direita forjando relacionamentos e trabalhando juntas porque há alguma base e valores comuns, mas na superfície. No final das contas, chega um ponto em que nacionalistas da Alemanha, da Polônia e da França vão entrar em conflito porque seus interesses são mutuamente excludentes. Isso é diferente entre democracias.
O sr. menciona duas preocupações dos tiranos: as elites ao redor dele e as Forças Armadas. Algo o surpreendeu na forma como o regime na Venezuela se manteve no poder após a queda de Nicolás Maduro?
O que era meio esperado é que havia pessoas ao redor dele envolvidas nessa queda. Ele obviamente foi traído pelas pessoas mais próximas.
O que a Venezuela mais uma vez demonstra é que, como ditador, você sempre tem que vigiar suas costas, sempre tem que ter cuidado com as pessoas que te cercam, que você vê todo dia e te sorriem pelos corredores do palácio presidencial.
O sr. também fala sobre como tiranos tentam sobreviver fragmentando as Forças Armadas, mas como isso também cria problemas.
Ditadores geralmente se preocupam mais com seus próprios soldados do que com os estrangeiros. Eles precisam encontrar uma forma de gerenciá-los, e uma das formas de fazer isso é reestruturar o aparato de segurança, criando forças paralelas, como a Guarda Revolucionária iraniana, mercenários ou uma guarda palaciana militarizada. E esse processo se replica nos serviços de inteligência, que se sobrepõem e vigiam tanto inimigos quanto a si mesmos.
Mas há uma troca, sempre há uma troca. Essa é uma das grandes questões no livro. Você não pode eliminar o risco, só redistribuí-lo.
Vemos isso no caso do Irã também: o aparato de segurança iraniano não foi construído para realmente travar guerras, mas para manter o regime no poder. É uma troca menos importante para Teerã porque para sobreviver, por enquanto, eles precisam apenas continuar a lançar mísseis e drones.
A China e as monarquias do Golfo são regimes autoritários muito diferentes que parecem estar cumprindo promessas de crescimento econômico, com uma repressão política muito consolidada. Esses países são reflexo de uma ordem global que favorece esses regimes autoritários?
A grande vantagem do sistema chinês é que ele tem algumas instituições funcionais. Então não é como a Líbia de Gaddafi. Quando um líder sai, há uma instituição funcional para canalizar o conflito, inevitável, de uma forma que reduza a chance de tudo ir para os ares.
Muita gente pensa que talvez os chineses tenham descoberto a fórmula para comandar uma ditadura de um jeito em que as elites se entendem e não ficam tentando se matar o tempo todo e etc. Mas o que temos agora é que Xi Jinping chegou ao poder e expurgou milhares de pessoas ao seu redor, personalizando o poder.
Aquilo que tornou o sistema chinês estável ele está destruindo. Ele ganhou poder às custas do partido, e isso está enfraquecendo a instituição que manteve o sistema funcionando. O que acontecerá depois, não sabemos.
Às vezes pergunto às pessoas, se elas pudessem escolher, se viveriam em uma democracia ou em uma ditadura. E poucas vão dizer ditadura, porque, primeiro, as chances são de que você não vai acabar na China, mas em alguma outra ditadura que não funciona tão bem.
E, mesmo na China, o problema é que você está completamente à mercê do regime, e eles construíram o maior aparato repressivo da história da humanidade. Se as coisas piorarem, não há muito o que você possa fazer.
Com adoção ampla de tecnologias digitais e IA, uma das maiores preocupações dos defensores da democracia é justamente essa possibilidade de que o mundo em que um tirano possa realmente controlar tudo em seu território talvez já seja uma realidade em alguns lugares. O sr. concorda com isso? Há alguma chance de voltarmos atrás nesse cenário?
Acho isso aterrorizante, porque houve um tempo em que havia muito otimismo em torno da tecnologia, das redes sociais e da internet, particularmente durante a Primavera Árabe. As pessoas falavam em tecnologia de libertação.
O que vemos agora é que, de modo geral, essas tecnologias são mais úteis para ditadores do que para a oposição. Ativistas podem usar a tecnologia para cooperar, reunir-se, mobilizar-se, tentar prejudicar esses ditadores. Mas as ditaduras têm uma vantagem quando se trata de escala e têm recursos diferentes.
O que talvez seja mais deprimente é que até democracias se envolvem em vender esse tipo de tecnologia para ditaduras. Não acho que há como reverter [o processo]. Gradualmente vamos encontrar formas de lidar com isso, como com tudo.
E acho que, daqui para frente, o que vamos ver é que vão surgir algumas soluções tecnológicas que vão facilitar a comunicação entre as pessoas e as tentativas de resistir a regimes autoritários, e talvez as democracias possam ajudar a desenvolver mais isso. Mas também as pessoas simplesmente vão usar menos tecnologia [para resistir a regimes tirânicos].
Raio-x | Marcel Dirsus, 35
Nascido em Hamburgo, na Alemanha, é cientista político com doutorado pela Universidade de Kiel, mestrado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e passagens por instituições de ensino na China, Ucrânia e França. É membro do Comitê de Especialistas sobre Terrorismo e Segurança Interna da Fundação Konrad Adenauer.
Fonte ==> Folha SP

