Ela pode até inaugurar a série, mas não será a única. As primeiras unidades começam a ser entregues na virada de 2026 para 2027. E, até 2030, a frota deve chegar a 2,5 mil unidades. Ao alcançar US$ 40 milhões em um evento beneficente da RM Sotheby’s, a Ferrari Luce Chassis 0 dá uma nova dimensão à eletrificação dos automóveis de ultraluxo.
Arrematado por 36 vezes a estimativa inicial da casa leiloeira e 60 vezes o preço das versões comerciais, o primeiro modelo 100% elétrico da montadora italiana ganhou status (e valor) de relíquia antes mesmo de chegar às ruas.
De Monterey, na Califórnia, onde foi realizado o leilão, o Chassis 0 ainda voltaria para a fábrica em Maranello, no norte da Itália, para as etapas finais de montagem técnica e a homologação de engenharia.
Normalmente, um automóvel precisa atravessar décadas, vencer corridas emblemáticas ou carregar a nostalgia de uma época para conquistar o título de peça de coleção. O Chassis 0, porém, não precisa esperar. Nasce como símbolo de uma nova era na Ferrari, em meio a uma das transformações mais profundas da indústria automotiva em mais de um século.
Nenhum outro exemplar será o primeiro carro da primeira linha eletrificada da escuderia do Cavallino Rampante. Seu comprador, o optometrista, investidor e bilionário americano Herbert Wertheim, tornou-se, aos 87 anos, dono de uma condição irrepetível.
Apesar do frisson causado pelos US$ 40 milhões, a cifra está longe de sinalizar, por si só, uma eventual valorização dos modelos elétricos da Ferrari — ou de qualquer outra fabricante de automóveis de alto padrão.
“Não se pode desprezar a natureza beneficente do leilão”, adverte ao NeoFeed o economista e consultor Leonardo Baldez Augusto, fundador do Instituto de Solução Financeira, entidade nacional de orientação de crédito a micro, pequenas e médias empresas.
Vendas públicas sem fins lucrativos, neste caso com renda revertida para a Fundação Ferrari, são frequentemente usadas pelos bilionários tanto para fins de filantropia quanto de benefício fiscal. Tem mais. Os lances astronômicos funcionam como uma espécie de atestado de lealdade à marca italiana.
A montadora de Maranello é conhecida por adotar critérios rigorosos de comportamento e fidelidade na seleção de quem pode adquirir seus modelos.
Wertheim é cliente antigo. No mesmo evento, em 2025, ele arrematou por US$ 26 milhões o único exemplar da Ferrari Daytona SP Tailor Made — o automóvel novo mais caro do mundo em leilões até então, posto agora ocupado pelo Luce Chassis 0.
Pá pum
A disputa pelo elétrico foi ligeira. Em poucos segundos, o preço inicial US$ 1 milhão pulou para US$ 5 milhões. Logo depois chegou a US$ 10 milhões. A partir daí, os lances ganharam tanta velocidade que o leiloeiro mal conseguia acompanhar os incrementos de valor… 20, 25, 30… 40 milhões!
A cifra, extraordinária mesmo para o universo dos superautomóveis, mudou por completo a narrativa em torno do primeiro elétrico da Ferrari. Ao ser apresentado em maio passado, o modelo foi alvo de uma saraivada de críticas.
O desenho assinado pelo britânico Jony Ive, famoso por liderar o departamento de design da Apple ao lado de Steve Jobs, foi considerado “um insulto à marca” e “horrivelmente decepcionante”.
A reação chegou às bolsas. No dia seguinte, as ações da companhia em Milão caíram 8,3%. Passado o susto inicial, os papéis recuperaram o terreno perdido. Mas veio Monterey e uma nova reviravolta.
Classificada como “arremate histórico” pelo mercado, a venda reforçou a capacidade da Ferrari em influenciar preços e desejos, avalia a corretora americana Jefferies ao recomendar a compra de ações da montadora na segunda-feira passada, 17 de agosto.
Ainda é cedo, no entanto, para comemorar o fim do ceticismo do hiperluxo em relação aos elétricos.
Como lembra o economista Leonardo Baldez, a venda do Chassis 0 reuniu uma série de condições favoráveis à cifra milionária: o pioneirismo na trajetória da Ferrari, a venda em um leilão beneficente e a configuração feita sob medida para aquele carro. O automóvel foi concebido como um one-off pelo programa Tailor Made da fabricante (veja os detalhes na sequência de fotos abaixo).
“Não comprem”
Para os fãs mais puristas da Ferrari, nada disso importa. A eletrificação não apenas acaba com o prazer de dirigir, como ameaça a própria identidade da marca.
Afinal, grande parte de seu valor emocional está no ronco do motor, na trepidação da carroceria, nas trocas de marcha enquanto o automóvel ganha velocidade. E, todo esse “drama” mecânico se perde com o silêncio e a leveza da propulsão por bateria.
A companhia até criou uma assinatura sonora própria para o conjunto elétrico e tentou desenvolver soluções para reduzir a percepção do peso das quatro baterias, mas não é a mesma coisa.
O desenho do primeiro e-Ferrari tem a assinatura do ritânico Jony Ive, famoso por liderar o departamento de design da Apple ao lado de Steve Jobs (Foto: rmsothebys.com)
Ao ser apresentado em maio, o Luce foi considerado um insulto à marca” e “horrivelmente decepcionante” (Foto: rmsothebys.com)
Os bancos são revestidos com um material ecológico combina fios de seda e micélio. Com aparência semelhante à camurça e resistente ao fogo, o tecido substitui o couro tradicional (Foto: rmsothebys.com)
Criada exclsuivamente para o novo modelo, a pintura madreperla semi-gloss combina branco perolado e acabamento semibrilhante. Dependendo da luz e do ângulo, a carroceria assume reflexos que vão do verde-esmeralda ao violeta (Foto: rmsothebys.com)
Por ser um veículo de cinco lugares e quatro portas, puristas argumentaram que o modelo perdeu a essência de cupê esportivo (Foto: rmsothebys.com)
Até o Chassis 0, o carro novo mais caro do mundo já leiloado era o Ferrari Daytona SP Tailor Made. Lançado em 2021, de design retrô-futurista, o carro foi projetado como uma homenagem à vitória tripla da escuderia italiana nas 24 horas de Daytona de 1967 (Foto: rmsothebys.com)
Aos87 anos, o optometrista, investidor e bilionário americano Herbert Wertheim garantiu seu lugar na história da Ferrari ao desembolsar US$ 40 milhões pelo primeiro carro elétrico da montadora italiana (Foto: Reprodução Instagram)
“A menos que a Ferrari mantenha os motores a gasolina em sua linha, perderá meu apoio financeiro”, diz Graham Royle, colecionador de Ferraris, Lamborghinis e McLarens, em entrevista ao jornal britânico Financial Times (FT).
A fabricante reconhece as limitações das medidas atuais. Do contrário, apresentaria o Luce como uma opção para os clientes mais conservadores. E, não é o que acontece. As concessionárias receberam ordens para não pressionar quem prefere a combustão, relata o periódico londrino.
“Aos entusiastas que encontro, sempre digo: por favor, não comprem [o Luce]”, conta Enrico Galliera, diretor comercial e de marketing da Ferrari ao FT.
O alvo é outro — os consumidores mais jovens, empreendedores de tecnologia e compradores de mercados como China e Estados Unidos, mais familiarizados com a experiência ao volante de elétricos.
Parece estar funcionando. A montadora atingiu no início de julho a meta de vendas do Luce prevista para todo 2026. Naquela ocasião, quase 500 unidades já haviam sido compradas, a maior parte por consumidores chineses.
Pé no freio
Mas encontrar novos clientes para os elétricos não elimina o dilema das fabricantes: como fazer a transição sem afastar a clientela mais ortodoxa? Cautela é a resposta.
A Ferrari reduziu de 40% para 20% a fatia de modelos elétricos que pretende ter no portfólio em 2030. Porsche, Lamborghini, Aston Martin, Lotus, McLaren e Rolls-Royce também revisaram seus planos e adotaram metas de eletrificação mais modestas e prazos mais longos, preservando espaço para modelos híbridos e a combustão.
A Jaguar destoa e encerrou a produção de carros a gasolina. Em vez de preservar seu público costumeiro enquanto testa a nova tecnologia, a montadora inglesa decidiu reconstruir a própria identidade em torno da eletrificação. Uma estratégia arriscadíssima, na concepção de analistas e investidores.
Só com o tempo
O Chassis 0 já provou que um elétrico pode alcançar o território dos carros de coleção. O que ainda não se sabe é se, no futuro, ele ocupará o mesmo lugar na memória afetiva — e no patrimônio — de seus proprietários.
Um dos desafios está na própria tecnologia. Um modelo dos anos 1960, com motor V12 e componentes essencialmente analógicos, sofre os efeitos do tempo, contudo pode, em tese, ser restaurado peça por peça indefinidamente.
O Luce, por outro lado, depende de sistemas sujeitos não apenas à degradação, mas também à obsolescência tecnológica. Atualmente, a vida útil das baterias de íon de lítio gira em torno de 150 mil a 300 mil quilômetros — algo entre dez e 15 anos.
Não por acaso, a Ferrari promete manter, no longo prazo, o conhecimento técnico, os fornecedores e o suporte de software necessários para que seus modelos elétricos continuem operacionais décadas depois de saírem da fábrica.
A sorte está lançada.
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Fonte ==> NEOFEED

