Após anos de impasse, a descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, foi recebida com otimismo pelo governo federal e pela Petrobras, que veem na região uma fronteira essencial para o futuro energético do Brasil.
No entanto, entre o “óleo na mão” e a produção comercial, ainda restam lacunas técnicas e ambientais a serem preenchidas. A presidente da estatal, Magda Chambriard, destacou que ainda não é possível dizer o tamanho exato da reserva de petróleo na região.
Onde o petróleo foi encontrado?
A Margem Equatorial brasileira está localizada acima dos estados do Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. A região tem cinco bacias de petróleo: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.
No dia 14 de agosto, a Petrobras confirmou a identificação de hidrocarbonetos no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, na bacia da Foz do Amazonas.
Apesar do nome, o bloco fica a mais de 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas e a mais de 160 quilômetros da costa, em alto mar. A estatal informou que o poço Morpho (1-BRSA-1405-APS) está localizado a cerca de 175 km da costa do estado do Amapá, em lâmina d’água de 2.886 metros.
Qual a qualidade do petróleo?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Magda descreveram o petróleo encontrado como de “belíssima qualidade”, com características que indicam ser um óleo leve e de alto valor comercial. Contudo, o tipo exato de petróleo encontrado ainda não foi definido. Lula visitou o navio-sonda da operação nesta segunda-feira (17).
Quanto custa a operação?
A operação utiliza a experiência da Petrobras em águas ultraprofundas, similar à tecnologia aplicada no pré-sal. A perfuração do poço Morpho já consumiu cerca de US$ 300 milhões, com um custo operacional diário de aproximadamente US$ 1 milhão.
O plano estratégico da companhia preve um investimento total de US$ 7,1 bilhões na exploração de petróleo em todo o país entre 2026 e 2030. Esse montante será destinado à perfuração de 40 novos poços exploratórios, distribuídos da seguinte forma:
- 15 poços na Margem Equatorial, representando 37,5% do total;
- 14 poços na Margem Sul e Sudeste, representando 35% do total;
- 11 poços em demais áreas, representando 27,5% do total.
O que ainda falta descobrir
Apesar do entusiasmo com a descoberta, a magnitude da reserva ainda é uma incógnita. Como ponderou a presidente da Petrobras, “tem petróleo, tem descoberta, a gente ainda não sabe quanto”.
A Petrobras precisa concluir a perfuração de mais mil metros no poço Morpho e, posteriormente, realizar a delimitação da área para saber o volume exato de óleo recuperável. Estima-se que a perfuração atual seja finalizada em um prazo de 15 a 20 dias, dependendo das condições da sonda.
Sem a certeza da quantidade, ainda não é possível saber se a exploração em águas ultraprofundas será economicamente viável para a estatal. A ANP estima que o volume de petróleo em toda a Margem Equatorial seja de mais de 30 bilhões de barris.
Amapá produzirá petróleo em 7 anos, disse presidente da Petrobras
No último dia 15, a presidente da Petrobras afirmou que o Amapá poderá produzir petróleo em águas profundas nos próximos sete anos, após a identificação da magnitude da reserva.
“Definido esse porte é que a gente parte para definir qual é o projeto de desenvolvimento que nós vamos empreender. Imagino que o Amapá possa ter petróleo sendo produzido em águas ultraprofundas de hoje a uns seis, sete anos”, afirmou Magda, em entrevista à GloboNews.
Petrobras espera licença para perfurar novos poços
Para entender o potencial real do bloco FZA-M-59, a estatal aguarda licenças do Ibama para perfurar mais três poços na mesma área e outros cinco em blocos adjacentes. Magda afirmou que esse “esforço exploratório gigantesco” é o que permitirá definir a real oferta da Margem Equatorial para o Brasil.
A Petrobras detém 100% de participação na área. O bloco foi adquirido na 11ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em 2013, sob o regime de concessão.
Prevenção de risco ambiental
O Ibama autorizou a exploração do bloco FZA-M-59 após a Petrobras apresentar planos para proteção da fauna e da flora da região em caso de vazamento. A estatal afirmou que utiliza um conjunto de tecnologias de última geração, procedimentos operacionais rigorosos e projetos de conservação da biodiversidade local para garantir a proteção na bacia da Foz do Amazonas.
A companhia destacou a ampliação da operação remota para reduzir riscos ambientais e a utilização de algoritmos de última geração com computadores de alto desempenho (HPC) para otimizar os projetos de exploração, diminuindo o número de intervenções necessárias.
Durante a visita ao navio-sonda, Lula destacou o uso do BOP (Blowout Preventer), equipamento de segurança que controla a pressão do poço. O BOP consiste em um conjunto gigante de válvulas e sensores de segurança instalado no topo de um poço de petróleo ou gás no fundo do mar. Em casos de emergência, o equipamento funciona como uma válvula de segurança de última instância instalada para bloquear o canal de perfuração e impedir o vazamento dos fluídos em alta pressão.
A operação de segurança na Margem Equatorial também prevê:
- Monitoramento local no poço e remoto na sede da empresa, funcionando 24 horas por dia;
- Planos de contingência com estruturas prontas para respostas a emergências, que incluem embarcações especializadas, equipes treinadas e equipamentos para contenção e recolhimento de óleo;
- Exercícios de simulação periódicos para aprimorar esses procedimentos;
- Estudos de identificação de impactos que são submetidos ao Ibama e podem receber contribuições da sociedade em audiências públicas;
- Apoio a iniciativas ambientais na região para mitigar impactos e preservar o bioma e à gestão territorial e conservação da biodiversidade em Terras Indígenas.
Margem Equatorial pode garantir reposição de reservas após pico de produção do pré-sal
Com a previsão de que o pico de produção do pré-sal ocorra entre 2034 e 2035, a Margem Equatorial é vista como o novo “passaporte para o futuro” necessário para garantir a reposição de reservas e a segurança energética das próximas décadas.
Ao mesmo tempo, a Petrobras afirma que a atuação na região será pautada pela sustentabilidade, com o uso de tecnologias de última geração para monitoramento remoto e gestão de emissões, integrando a exploração de fósseis aos desafios da transição energética justa.
Impasse no governo sobre a Margem Equatorial
Em maio de 2023, o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, negou a licença solicitada pela estatal para explorar petróleo no FZA-M-59. A negativa gerou um impasse dentro do governo, pois a Petrobras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendem a exploração.
Já a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e Agostinho questionavam a exploração da região devido à possibilidade de danos ambientais.
A companhia pediu ao Ibama que reconsiderasse a decisão. Durante a nova análise, o órgão aprovou o conceito do Plano de Proteção e Atendimento à Fauna Oleada (PPAF). Em agosto de 2025, a companhia conduziu a Avaliação Pré-Operacional (APO).
No mês seguinte, o Ibama aprovou a resposta da empresa durante a simulação de vazamento no Amapá e, em outubro, concedeu a licença para a pesquisa exploratória.
Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br

