Ainda sabemos ser namorados? – 10/06/2026 – Amor Crônico

Dois macacos apaixonados se abraçando e se beijando

A chegada do Dia dos Namorados traz consigo um incômodo difícil, mas urgente de ser nomeado se quisermos viver amores que desejemos celebrar. Parece paradoxal que uma data comercial e protocolar escancare justamente o quão protocolar anda o amor que chamamos de feliz.

Vivemos hoje um paradoxo afetivo: 8 a cada 10 brasileiros que namoram ou são casados atribuem notas de 7 a 10 para sua felicidade no amor, mas 1 a cada 3 confessa sentir falta da conexão como casal e não apenas como família. Estes são dados inéditos da pesquisa Raio X da vida afetiva 25–26 desenvolvida por mim e pela psicanalista e pesquisadora Camila Holpert. Com a “On the go”, ouvimos mais de mil brasileiros para entender como vivemos e o que queremos do amor.

Estes números refletem queixas que ouço na clínica e nas perguntas enviadas por leitores: afinal, por que me sinto desconectado de alguém com quem construí uma vida que aparentemente funciona tão bem?

Talvez justamente por isso: o que tem feito o amor funcionar é justamente o que o tem esvaziado. Deixamos de ser casal e viramos sócios de uma microempresa. Levamos a lógica da gestão para o amor e transformamos o vínculo em cronograma, parceiro em acionista, fim de semana em sprint.

Esse mecanismo fica claro ao identificarmos que os principais atributos responsáveis pela felicidade conjugal são respeito (47%), parceria (41%) e cumplicidade (37%). O que o brasileiro celebra está prioritariamente no campo do companheirismo. É claro que é lindo viver uma relação companheira. O problema surge quando ele ocupa tanto espaço que já não sobra lugar para a dimensão de amantes.

Quando o vínculo se organiza inteiramente em torno do funcionamento, o erótico se retrai. Dessexualizamos o vínculo.

Uma das grandes armadilhas contemporâneas é nos implicarmos tanto em sustentar o vínculo que não há vitalidade para habitá-lo. Gastamos tanta energia para manter a roda girando que esquecemos que a libido é finita.

Qual foi a última vez que você e seu par se viram como namorados, e não como co-pais, comoradores ou coadministradores?

Vivemos em tempos de presenças ausentes e tarefas hiper-presentes: 1 em 5 brasileiros aponta sobrecarga de tarefas e falta de tempo como problemas centrais da relação. E mesmo quando estamos juntos, muitas vezes já não estamos lá.

A presença ausente é uma das formas mais cruéis de erosão do amor: 1 a cada 4 se queixa da falta de escuta e 1 a cada 5 se angustia com o tratamento de silêncio. O parceiro está na mesa de jantar, mas conectado ao celular; divide a louça a lavar, mas não mais o longo beijo de língua.

Fazemos, fazemos e nos vemos exaustos, sós e inseguros. O fato de que nosso maior medo no amor hoje é não ser suficiente escancara o quanto, além de não termos energia para desejar, também nos sentimos cada vez menos desejáveis.

Fragilizados sem nos autorizarmos a ser frágeis, tentamos proteger o amor por caminhos que parecem maduros: já que a família é prioridade, o correto é focar nos interesses comuns. Confundimos, assim, construir uma vida juntos com diminuir as vidas que existem separadas. Deixamos de ir ao show que o outro não gosta. Abandonamos interesses individuais. Criamos uma reciprocidade de renúncias como se liberdade e lealdade fossem opostos.

Curiosamente, pesquisas globais revelam que o que mais desperta nosso desejo pelo outro é justamente vê-lo desejando a vida. A própria vida e não a “nossa” vida. Ver o brilho quando mergulha num estudo, se transforma numa amizade, quando habita um mundo que existe para além de nós. Existe algo profundamente erótico em perceber que aquela pessoa tão familiar ainda guarda territórios que não nos pertencem. Intimidade e mistério, segurança e aventura, separação e encontro. Paradoxos que mantêm o amor vivo mas que temos matado em nome da suposta manutenção do casal.

Não há vitalidade, tesão ou enamoramento possíveis num corpo esgotado e numa rotina sem respiro ou alteridade. Estive em Nova York em um congresso sobre relações e ouvi Esther Perel dizer que encontrar vivacidade e desejo no amor passa menos por esperar condições ideais e mais por criar interrupções intencionais naquilo que nos automatizou.

Encantamento não acontece, se constrói —não “se resgata”, esta é uma mudança de chave essencial. Voltar a namorar não é voltar a sermos os namorados que éramos antes dos filhos, antes da traição, antes do caos. É voltar a estranhar o outro com a curiosidade e a presença de quem se aventura na redescoberta do estrangeiro naquele tão familiar.

Essa redescoberta só acontece na presença realmente presente. Nas pausas deliberadas. Nas ritualizações que trazem pro cotidiano símbolos e sentidos. Desejo exige corpo, toque, curiosidade. O prazer não nasce da análise racional, mas da permissão da experiência. A mudança conjugal potente é a que atravessa nossos sentidos e não apenas nossas conversas.

A dureza e as tarefas da vida encolhem nossa imaginação, mas é justamente esta que nos salva quando falta magia no cotidiano. Que possamos brincar, experimentar novos toques e criar novos rituais.

A tarefa afetiva contemporânea clínica e cultural talvez seja recuperar a paixão dentro da arquitetura do cuidado, e não contra ela. Que ousemos voltar a namorar. Erótica, estrangeira e sensorialmente. Deliciem-se descuidando um pouco de tudo.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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