Amor paterno ganha tradução entre presença, luto e escuta – 05/08/2026 – Amor Crônico

IE, modo de usar. Um guia para sua inteligência emocional. Uma parceria da Folha com The School of Life

Sou uma mulher das palavras, do transbordamento dos afetos, do apreço pela subjetividade e de um certo gosto pela melancolia. Acho bonito habitá-la, e mais bonito ainda respeitar as impotências —minhas e do outro.

Ele é um homem dos atos, da contenção que sustenta, da presença inteira que prioriza os gestos em vez das palavras. Ele acha importante seguirmos em frente: atravessar, para ele, é reverência. Eu choro as faltas. Ele segue para honrá-las.

Ele é meu pai, meu vínculo primevo e estrutural de amor. A presença que sustentou a ausência de minha mãe, que faleceu quando eu tinha 5 anos e ele, 35. A figura que me ensinou que amor se sente “e” se explica, se traduz.

Foi ele quem, tão jovem, nos ensinou a potência dos pequenos rituais que se repetem: o teatro, a tortinha de morango da Ofner, todo fim de semana. Para quem perdeu tudo de repente, repetir é ter chão e é doçura convivendo com a dor.

Ele me encontrava chorando vendo VHS da minha mãe e dizia “se você já tá triste, para que ver algo que te deixa mais triste? Você é muito melancólica“. E foi o mesmo homem que me apresentou a beleza da melancolia, enchendo a casa com o violino de “Cinema Paradiso“. Reprovava em palavras o que me oferecia em atos. Nenhum de nós dois sabia que aquilo já era tradução.

É interessante pensar que usamos a expressão “língua materna” para nomear o idioma que falamos naturalmente. Transposta para o afeto, ela promete carinho, delicadeza, palavras de conforto e um entendimento absoluto, que antecipa nossas necessidades sem que precisemos nomeá-las. A língua que buscamos a vida toda para voltar à ilusão de completude de quando bebês —antes de percebermos que havia outro, um estrangeiro, um pai que interditava a conexão e ainda falava outra língua. Qual seria essa língua paterna, que não é “natural” nem nos é ensinada?

Recebo na clínica muitos relatos de adultos que se sentem eternas crianças repreendidas por pais presentes na estrutura e nas regras, mas não no colo, na escuta, nas emoções. Talvez não exista tanta falta quanto dói sentir. Talvez falte tradução: ensinar a língua que se fala e aprender a do outro, que ainda pode ser colo.

Eu e meu pai nos transformamos ao aprender o “bilinguismo do afeto”. Traduzir meu amor por ele em palavras é minha forma de homenagear esse “pai herói” e de te convidar a revisitar o léxico que você e seu pai têm usado.

Repito “pai herói”, pois precisei traduzir a expressão para ele. Foi no jantar de segunda nosso ritual de comer frango assado na casa dele; eu sempre mais diálogo, ele sempre mais presença. Comentava os efeitos da ausência emocional paterna e dizia como era grata por ter um pai herói tão presente. Ao me ouvir, ele me repreendeu: “chega né, Carolina, você não é mais uma menina.” Me faltaram palavras.

À noite, liguei para que a gente pudesse se traduzir.

Disse que o chamo assim não porque acredite que ele é perfeito, mas porque honro sua garra, sua dedicação a mim e a meu irmão, suas idas de metrô com uma orquídea para me ver fazer teatro cult no centro do Rio. Porque sei como ele me deu colo quando perdi um sócio e amigo. Nas palavras, disse: “se este é o trabalho em que você acredita, vai ter que se reerguer e seguir sozinha.”

Eu só queria chorar no colo dele e ouvir algo que nomeasse o horror que eu mesma não conseguia traduzir. Isso não veio. Veio outra coisa: “já que estão arrumando a infiltração no seu apartamento, em vez de dormir aqui dois dias, fica duas semanas e não dorme com cheiro de tinta.” Eu entendi. Aceitei. Eu, aos 39 anos, puxei um colchão e dormi no chão do quarto dele, chorando. Ele estava lá.

Disse a ele que me conectar pelo afeto, pelo “eu te amo e te admiro”, não me faz uma menina: me faz uma mulher que vive a partir do amor.

O medo do pai herói era que a filha não crescesse. O da filha, que o pai não se orgulhasse da adulta que cresce no campo do sutil, das mudanças que vão aos poucos. Angustiado ao me ver angustiada, dizia: “quando você vai dar uma guinada na vida?”

Entendi que era torcida e não repreensão. Contei a ele que sou uma mulher do “devagar, devagar, de repente”. Nos entendemos. Nos traduzimos.

Aprendemos também a pedir. “Pai, tô precisando de colo.” “Filha, hoje não quero falar disso, podemos só ficar aqui… Me conta algo bom.” Ninguém ama naturalmente e sem tradução.

Mesmo apaixonada pelas palavras, aprendo com ele a potência do amor que é gesto. Amor que o fez atravessar São Paulo para levar coxinha da Ofner à minha tia no hospital, no último dia dela. Em silêncio, os dois comeram. Com palavras, eu me declarei a ela. Nós dois sempre estivemos lá.

Quando veio um diagnóstico difícil sobre minha avó, mãe dele, contive o impulso de dizer o que eu queria ouvir. Não trouxe palavras de conforto: trouxe um bolo de coco gelado, o favorito dele. O mesmo gesto doce da minha infância tornando a dor menos amarga.

Continuo sendo mais diálogo. Ele, mais presença. A diferença é que já não confundimos diferença com falta. O bilinguismo no amor me deu um senso de pertencimento que se dá na alteridade. Se hoje repito Erich Fromm “o amor é o que o amor faz” como mantra, é porque vivi esse amor-ação desde pequena.

Que neste Dia dos Pais você e seu pai possam se dar de presente a chance de aprender a língua um do outro.

Obrigada Carlos Tilkian por ser meu pai herói.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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