Antes de ser mãe, existe uma mulher: o resgate da identidade feminina após o nascimento do bebê

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Médica pediatra Dra. Marli Rio, que há quase 30 anos acompanha crianças e suas famílias, defende um olhar mais humano para a maternidade e chama atenção para a necessidade de cuidar também da mulher que existe por trás da mãe

São Paulo, agosto de 2026 – O nascimento de um bebê costuma ser apresentado como um dos momentos mais felizes da vida de uma mulher. Mas, por trás das comemorações, das visitas, dos presentes e das fotografias, existe uma transformação profunda que nem sempre recebe a mesma atenção: o nascimento de uma mãe.

Ao mesmo tempo em que passa a cuidar de uma nova vida, a mulher precisa lidar com mudanças físicas, emocionais, sociais e até mesmo com uma nova percepção sobre sua própria identidade. A rotina muda, as prioridades se transformam, o sono é interrompido e, muitas vezes, desejos, projetos, carreira, relacionamentos e momentos de autocuidado acabam ficando em segundo plano.

É justamente sobre essa mulher que a médica pediatra Dra. Marli Rio decidiu ampliar o olhar de seu trabalho. Com quase três décadas de experiência acompanhando crianças e suas famílias, ela percebeu que, por trás de cada bebê que chegava ao consultório, havia também uma mulher atravessando uma das maiores transformações de sua vida.

“Antes de ser mãe, existe uma mulher. E essa mulher não deixa de existir quando o bebê nasce. Ela continua tendo sonhos, necessidades, inseguranças, desejos e uma história que precisa ser respeitada.”

Para a pediatra, cuidar da criança também significa compreender o contexto em que essa criança está inserida e olhar com atenção para quem exerce grande parte dos cuidados nos primeiros meses de vida.

Quando nasce um bebê, também nasce uma mãe

A chegada de um filho inaugura uma nova identidade. A mulher passa a ser chamada de “mãe” e, muitas vezes, essa palavra passa a ocupar praticamente todos os espaços de sua vida.

É comum que as necessidades do bebê sejam colocadas naturalmente no centro da rotina. Alimentação, sono, consultas, vacinas, desenvolvimento e cuidados diários passam a ocupar grande parte do tempo. Entretanto, segundo Dra. Marli, é importante lembrar que existe uma mulher por trás de todos esses cuidados.

“Eu sempre procurei cuidar não apenas da saúde da criança, mas também da tranquilidade da mãe. Porque uma mãe acolhida, orientada e segura consegue viver a maternidade de uma maneira diferente.”

Essa percepção surgiu ao longo dos anos de consultório, a partir da convivência próxima com famílias e das histórias compartilhadas pelas mães. Medos, dúvidas, culpa, exaustão e a sensação de não estar dando conta aparecem com frequência nesse período.

“Durante quase 30 anos de profissão, fui percebendo que muitas mães chegavam ao consultório preocupadas com o bebê, mas também precisavam de alguém que olhasse para elas. Muitas estavam cansadas, inseguras e sem saber se aquilo que estavam sentindo era normal”, conta a médica.

Para ela, a maternidade não deveria significar o desaparecimento da identidade anterior, mas a construção de uma nova fase que possa integrar a mulher que existia antes do bebê à mãe que acaba de nascer.

O desafio de não desaparecer dentro da maternidade

A romantização da maternidade pode dificultar ainda mais esse processo. Existe uma expectativa social de que a mulher esteja permanentemente feliz, realizada e disponível para o filho. Quando sentimentos como cansaço, solidão, irritação ou insegurança aparecem, muitas mães podem interpretar essas emoções como sinais de fracasso.

É nesse ponto que, segundo Dra. Marli, o acolhimento se torna fundamental.

“Precisamos parar de exigir que a mãe seja perfeita. Ela precisa de informação, mas também precisa de acolhimento. Precisa saber que pedir ajuda não diminui sua capacidade de ser mãe.”

O resgate da identidade feminina, portanto, não significa afastar a mulher da maternidade. Pelo contrário: significa permitir que ela consiga exercer esse novo papel sem precisar abrir mão completamente de quem é.

Retomar pequenos interesses, manter vínculos sociais, conversar com outras mulheres, preservar momentos de descanso e continuar olhando para seus projetos pessoais são atitudes que podem ajudar a mulher a reconhecer que sua existência não se resume à maternidade.

“Uma mãe não precisa escolher entre ser uma boa mãe e continuar sendo mulher. Ela pode ser as duas coisas. Pode amar profundamente o filho e, ao mesmo tempo, sentir falta de determinadas partes da vida que tinha antes. Uma coisa não anula a outra”, explica a pediatra.

Do consultório para projetos de acolhimento às mães

A experiência acumulada ao longo de sua carreira fez com que Dra. Marli percebesse que sua missão poderia ultrapassar as paredes do consultório.

Foi desse desejo de levar informação e acolhimento para mais mulheres que nasceram projetos como o Guia da Mãe Recém-Nascida, além de palestras e iniciativas editoriais voltadas à maternidade.

A proposta é oferecer conteúdo para uma fase em que a mulher costuma receber muitas informações sobre o bebê, mas nem sempre encontra espaço para falar sobre si mesma.

“Foi assim que nasceu o Guia da Mãe Recém-Nascida. Eu queria falar com aquela mulher que acabou de ter um bebê e dizer: você não está sozinha. Você também precisa ser cuidada.”

A iniciativa parte de uma compreensão mais ampla da maternidade: informação de qualidade pode ajudar a reduzir inseguranças, enquanto acolhimento pode contribuir para que a mulher atravesse essa fase com menos culpa e mais consciência.

Cuidar da mãe também é cuidar do bebê

A relação entre o bem-estar materno e o ambiente familiar é outro ponto central na visão da pediatra. Para Dra. Marli, quando a mulher encontra suporte, informação e espaço para expressar suas dificuldades, toda a dinâmica familiar pode ser beneficiada.

Isso não significa responsabilizar a mãe pelo bem-estar de toda a família, mas reconhecer que ela também precisa estar no centro da rede de cuidados.

“A mãe não pode ser vista apenas como aquela que cuida. Ela também precisa ser cuidada. Quando olhamos para a maternidade dessa forma, começamos a construir uma relação mais saudável entre mãe, bebê e família”, afirma.

O debate também passa pela importância de construir uma rede de apoio. Companheiro, familiares, amigos e profissionais de saúde podem exercer um papel importante para que a mulher não carregue sozinha todas as responsabilidades relacionadas ao bebê.

Para a médica, perguntar “como está o bebê?” é importante, mas perguntar “como você está?” também deveria fazer parte da rotina de quem convive com uma mãe recém-nascida.

Uma nova forma de olhar para a maternidade

Ao longo de sua trajetória, Dra. Marli transformou uma inquietação observada no consultório em um propósito profissional: cuidar da saúde da criança sem deixar de enxergar a mulher.

Seu trabalho parte da ideia de que maternidade e identidade feminina não precisam ser caminhos opostos. A chegada de um filho muda a mulher, mas não precisa apagar sua história.

“Toda mãe também nasce quando nasce um bebê. E, quando essa mãe nasce, ela precisa de cuidado, de informação e de acolhimento. Meu propósito é cuidar da saúde da criança e da tranquilidade da mãe.”

Mais do que falar sobre os desafios dos primeiros meses após o nascimento de um filho, a discussão proposta pela pediatra convida a sociedade a rever a maneira como enxerga a mulher que acabou de se tornar mãe.

Porque, antes de perguntar se o bebê está dormindo, mamando ou crescendo bem, talvez seja preciso lembrar de perguntar algo simples — e muitas vezes esquecido:Como está a mulher que está cuidando desse bebê?

É a partir dessa pergunta que Dra. Marli Rio pretende ampliar a conversa sobre maternidade e dar voz a mulheres que, durante muito tempo, foram ensinadas a ocupar apenas o lugar de cuidadoras.

“Hoje, minha missão é dar voz às mães que, por tanto tempo, se sentiram invisíveis.”

Sobre a Dra. Marli Rio

Médica pediatra, Dra. Marli Rio atua há quase 30 anos no acompanhamento de crianças e suas famílias. Ao longo de sua trajetória, ampliou sua atuação para projetos de informação, educação e acolhimento relacionados à maternidade, incluindo o Guia da Mãe Recém-Nascida, palestras e projetos editoriais. Seu trabalho tem como propósito unir o cuidado com a saúde da criança ao acolhimento e à tranquilidade da mãe.

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