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Chablis, um vinho branco francês da região da Borgonha, é conhecido por seu sabor mineral e acidez, sendo ideal para acompanhar ostras e frutos do mar.
Recentemente, as importações de Chablis para o Brasil cresceram 62%, com um aumento significativo em volume e valor de negócios.
O Brasil subiu da 21ª para a 15ª posição entre os importadores de Chablis.
O estilo fresco e mineral do vinho atrai consumidores brasileiros, que têm se mostrado cada vez mais interessados.
Chablis é classificado em quatro níveis, com preços que variam, sendo os Petit Chablis a partir de R$ 150.
A popularidade do Chablis no Brasil é impulsionada por ações de marketing e a valorização de seu terroir distinto.
O clima frio da região contribui para a produção de vinhos com frescor e mineralidade, embora o aquecimento global represente um desafio para a produção futura.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Ele é claro, azedinho e tem algo de mineral no aroma e no sabor. É considerado o par perfeito para ostras, mas cai bem também com peixes e outros frutos do mar. Chablis é seu nome e o da vila francesa em torno da qual ele é produzido — uma subdenominação da Borgonha.
Como praticamente todos os brancos da região, é um chardonnay puro, mas muito diferente dos outros. É conhecido há muito tempo, mas recentemente ganhou destaque em mercados do mundo todo; quase como se fosse novidade. No Brasil, mais do que em qualquer outro lugar, virou objeto de desejo.
De 2024 para 2025, as importações de Chablis para o Brasil cresceram 62%, segundo dados da Ideal BI, empresa de inteligência de mercado focada em vinhos e espumantes. “O valor dos negócios foi de US$ 2,9 milhões para US$ 4,7 milhões”, diz Felipe Galtaroça, CEO da consultoria, em entrevista ao NeoFeed. Em volume, o aumento foi de 25 mil para 38 mil caixas — cada uma com 12 garrafas ou 9 litros da bebida.
Nos dados da Comissão dos Vinhos da Borgonha, em 2021, o Brasil ocupava a 21.ª posição na lista dos grandes importadores. Hoje o país está em 15ª.
“O estilo dos Chablis agrada aos consumidores que, cada vez mais, apreciam vinhos frescos e minerais”, afirma ao NeoFeed Paul Espitalié, copresidente do Departamento de Chablis da entidade. E, como lembra a sommelière Anna Rita Zanier, “todo mundo, uma vez na vida, já provou ou, se não provou, já ouviu falar de Chablis”.
Até os anos 1970, no Brasil e em vários países, chablis era sinônimo de vinho branco com acidez agradável; assim como champanhe significava espumante e vinho do Porto, vinhos fortificados de sobremesa. Havia chablis californianos, chablis australianos, chablis da Serra Gaúcha — este nem de chardonnay era.
A partir da década de 1980, quando os selos de origem começaram a ser mais respeitados, todos os produtores de fora da região francesa foram obrigados a retirar o nome Chablis de suas etiquetas. Contudo, o Chablis permaneceu vivo na memória coletiva. Não foi preciso grandes ações de marketing para reativá-la.
No ano passado, no Brasil, houve uma ação para divulgar os vinhos da Borgonha, com especial destaque para Chablis — o evento reuniu especialistas e realizou degustações em várias cidades. E isso pode ter contribuído para o burburinho em torno da bebida. “Aqui, oferta gera demanda”, diz Galtaroça. “A importadora traz mais rótulos, o sommelier sugere como harmonizar, o atendente da loja oferece…”
Os vinhos de Chablis não estão entre os mais caros da Borgonha. Eles estão classificados em quatro níveis: Petit Chablis, Chablis, Chablis Premier Cru e Chablis Grand Cru (veja na sequência de fotos abaixo).
No Brasil, o preço dos Petit Chablis começa por volta dos R$ 150, mas pode subir muito, dependendo do produtor — enquanto os Borgonha mais baratos giram em torno dos R$ 250. Já os Chablis Grand Crus podem chegar a dezenas de milhares de reais.
“O público de Chablis não necessariamente é o mesmo da Borgonha”, diz ao NeoFeed Guilherme Lemes, CEO da importadora Clarets. “Embora Chablis faça parte da Borgonha e utilize exclusivamente a chardonnay, o perfil do consumidor apresenta algumas diferenças. Chablis é uma excelente porta de entrada para a Borgonha.”
Domaine Jean Collet & Fils Petit Chablis 2023: Se o Chablis é a porta de entrada para a Borgonha, o Petit Chablis é a porta de entrada para os Chablis. Na maioria das vinícolas, ele é o mais barato dos Chablis. Não é apenas uma questão de preço, mas sim de leveza, mesmo porque o Petit Chablis de uma vinícola pode ser mais caro do que o Chablis de outra. Este, bem azedinho e frutado, custa R$ 379 na Premium Wines
Pascal Bouchard Chablis Le Classique 2023: Produtor moderno que tem inovado bastante, produzindo inclusive alguns vinhos propositalmente sem denominação de origem. Este, porém, é o seu Chablis clássico. É um vinho ultrafresco, com aromas cítricos e minerais e ótima acidez na boca. Um vinho que faz salivar, abre o apetite. Custa R$ 339 na Barrinhas
Dampt Chablis Les Beaumonts 2023: Seco e mineral, ele chega a ser um pouco salino. No nariz, tem aromas cítricos e um toque de giz. Este passa por um pouco de madeira, mas é imperceptível. Os Dampt são uma família muito tradicional de Chablis. Este vinho é dos irmãos Eric e Emmanuel Dampt, uma dupla bastante conceituada que produz também tintos em outras partes da Borgonha. Custa R$ 330 na Anima Vinum
Domaine Bèguet-Mathiot Chablis 2024: Aqui já temos um Chablis com um pouco mais de volume e estrutura. Ele passa meses sobre as lias. Daí provavelmente uma untuosidade perceptível, apesar de ser um branco fresco e frutado, como se espera de um Chablis village. Esse frescor é garantido pela altitude dos seus vinhedos, de onde se tem uma bela vista da encosta dos vinhedos de grand cru de Chablis. Custa R$ 325 na Cellar
La Chablisienne Chablis Cuvée Spéciale 1923 2020: La Chablisienne é uma daquelas poucas cooperativas que conquistaram tanto ou mais prestígio do que as vinícolas à sua volta. Foi fundada em 1923 e mantém até hoje um trabalho de muita qualidade. Este vinho tem aromas precisos e contundentes. Tem cítrico, flores e frutas brancas. Muito fresco na boca. Custa R$ 499 na Clarets
Para Rodrigo Malizia, CEO da Cellar Vinhos, que em 2019 trabalhava com apenas um produtor de Chablis e hoje faz negócios com quatro, é preciso lidar de forma diferente com o consumidor de Chablis: “É importante valorizar o seu terroir distinto, especialmente a mineralidade e a salinidade características, fugindo de estilos com muita madeira e priorizando o frescor”.
Outros adjetivos comumente associados a Chablis são: puro, preciso, direto.” Chablis é uma verdadeira aula de terroir, demonstrando como o conjunto de fatores naturais influencia diretamente o caráter do vinho”, afirma o executivo ao NeoFeed.
O terroir de Chablis é bastante peculiar. Durante muitos anos, foi uma das regiões vitivinícolas da Europa mais próximas do Pólo Norte. Por isso, tem invernos rigorosos e verões amenos — o que garante a acidez da uva. O solo é muito rico em carbonato de cálcio, pois um dia já foi o leito do mar e ali se depositaram conchas e espinhas de peixe. Isso aporta a mineralidade para o vinho e também impacta na acidez: como o solo é básico, a videira reage produzindo mais ácido para equilibrar o ambiente.
“Ali o terroir fala tão alto que muda a percepção da chardonnay”, conta ao NeoFeed a brasileira Pryscilla Gashi, proprietária da Viti Wine Tours, empresa de receptivo para o enoturista na Borgonha e regiões próximas. Segundo ela, subiu também a procura por passeios pela região de Chablis. Como ela lembra, frequentemente os turistas dizem: “Não gosto de chardonnay, mas adoro Chablis”.
Pode até ser falta de informação, mas eles não estão completamente errados. Chablis é diferente de tudo quanto é chardonnay no mundo — exceto alguns do Novo Mundo que tentam imitá-lo com relativo sucesso.
É diferente também dos chardonnays da Côte de Beaune, onde se produz a maior parte dos brancos da Borgonha. Ali o uso da madeira é regra. Em Chablis, não. Frequentemente, o vinho só passa por inox, cimento, concreto ou qualquer outro material inerte para manter seu frescor, sua fruta e sua mineralidade. Quando há madeira, ela é leve.
“O principal desafio continua sendo o clima”, diz Romain Collet, do Domaine Jean Collet, importado pela Premium Vinhos, em entrevista ao NeoFeed. “As geadas de primavera podem ser muito severas e comprometer parte da colheita. Também temos de lidar com condições climáticas cada vez mais extremas. Mas esse clima frio também é uma das grandes vantagens de Chablis.”
Segundo ele, o frio e o solo jurássico permitem produzir vinhos com grande frescor, tensão e uma forte mineralidade — uma identidade única no mundo.
Mas, como ficará a produção de Chablis com o aquecimento global?
“Uma grande questão será manter o equilíbrio com potencialmente menos acidez e um grau alcoólico mais elevado. Uma das formas que temos encontrado de evitar isso é parar a fermentação malolática antes do final para preservar a acidez”, comenta com o NeoFeed Florent Denieuil, produtor da Maison Pascal Bouchard, importada para o Brasil pela Barrinhas. “Mas, por enquanto, os vinhos ainda mantêm uma tipicidade reconhecida e apreciada.”
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Fonte ==> NEOFEED

