Cultura na Ucrânia é resistência à ocupação russa – 23/07/2026 – Djamila Ribeiro

Sob um fundo azul claro surgem duas mãos, com diferentes tons de amarelo, se cumprimentando de modo firme. 

Há anos nutro uma admiração improvável pela banda ucraniana DakhaBrakha. Começou durante a pandemia, quando ouvi pela primeira vez a música “Baby”, sugerida por um aplicativo.

A canção começa com um vocal masculino e alterna a um coral de mulheres em ucraniano. Não compreendo uma palavra daquele canto, mas ele sempre me conduz a um lugar de bênção e de magia. As boas músicas têm esse poder: aproximam-nos do sagrado, seja qual for o idioma.

Quando, em março deste ano, encontrei-me com Oleksandra Matviichuk, advogada ucraniana laureada com o Nobel da Paz em 2022, falamos dos crimes documentados durante a guerra e o cotidiano de um povo obrigado a sobreviver sob bombardeios.

Na manhã seguinte, voltamos a conversar. Dessa vez, DakhaBrakha era minha carta na manga. Oleksandra sorriu; conhecia de cor. Perguntou se eu já havia escutado “Dytyatochko”, composição recente inspirada no roubo de crianças ucranianas pelas autoridades russas durante a guerra.

Respondi que não. E acrescentei, um tanto em choque, que aquela era a primeira vez que eu ouvia falar daquela prática.

De volta para casa, fui pesquisar mais sobre o assunto. Quanto mais pesquisava, mais percebia como é poderosa a máquina de propaganda russa no Brasil.

Enquanto memes mostram Vladimir Putin segurando cachorros e cultivam sua imagem de líder afável, passa quase despercebido que a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Ucrânia, vinculada à Organização das Nações Unidas, concluiu que autoridades russas cometeram crimes contra a humanidade por meio da transferência forçada e do desaparecimento de crianças ucranianas. A comissão analisou os casos de 1.205 crianças sequestradas; aproximadamente 80% ainda não haviam regressado.

Relatório recente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa afirma que cerca de 20 mil crianças foram deportadas ou transferidas ilegalmente desde o início da invasão em larga escala. O número real pode ser ainda maior, pois a destruição de registros e a alteração de identidades dificultam qualquer levantamento.

O Império Russo, a União Soviética e a Federação Russa não são regimes idênticos. Ainda assim, possuem continuidades: a imposição da língua russa, a perseguição a intelectuais ucranianos e a repressão aos movimentos de soberania.

Em 1863, a “Circular Valuev”, do Império Russo, proibiu a publicação de livros em língua ucraniana sob o argumento de que “nunca existiu, não existe e não pode existir uma língua ucraniana”.

Entre 1932 e 1933, milhões de pessoas morreram na Ucrânia soviética durante o Holodomor —”o extermínio pela fome”— imposto pelo regime de Josef Stalin. Quase um século depois, sob a liderança de Vladimir Putin, a Federação Russa aprofundou a ocupação iniciada em 2014 e, em 2022, lançou uma invasão em larga escala contra a Ucrânia, submetendo a população ao frio extremo, aos bombardeios e à destruição do ecossistema.

Entre tantas violências, centenas de mulheres e meninas ucranianas denunciaram violência sexual praticada por tropas russas nos últimos anos. Mulheres foram engravidadas; outras, transformadas em escravas sexuais dos soldados; outras ainda foram traficadas para diversos países, como denuncia Maryna Lehenka, presidente da organização La Strada. Diante do escândalo sexual do Banco Master, é necessário investigar se foram traficadas, inclusive para o Brasil.

A literatura ucraniana fala de casas invadidas, famílias dilaceradas e identidades obrigadas a se esconder para sobreviver. E o faz em ucraniano, orgulhosa de um idioma que projetos imperiais tentaram apagar.

No Festival Literário em Montreal, conheci a poeta Lyuba Yakymchuk, autora de “Apricots of Donbas”, ainda sem tradução para o português. Nascida na região de Luhansk, ela viu sua cidade natal ser ocupada por forças apoiadas pela Rússia em 2014 e transformou essa experiência em poesia.

Em entrevista à revista ucraniana Craft, no ano passado, explicou que faz questão de continuar escrevendo sobre Luhansk e Donetsk porque manter essas cidades presentes na literatura é também uma forma de as preservar.

“Primeiro vem o Exército e destrói tudo. Depois, a cultura russa continua o trabalho dos tanques, das metralhadoras e dos mísseis”, afirma. Para ela, quando o território já não pode ser alcançado, é preciso mantê-lo vivo pela poesia, pelo cinema e pela arte. A cultura torna-se, assim, outra forma de resistência à ocupação.

Continuo ouvindo DakhaBrakha sem compreender o idioma. O coro segue como uma reza de proteção contra dominações que podem ocupar cidades, destruir casas, sequestrar crianças, violentar mulheres e tentar apagar uma língua. Mas, ainda assim, haverá quem resista e reconstrua a vida pela memória, pela arte e pela palavra.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *