Há anos nutro uma admiração improvável pela banda ucraniana DakhaBrakha. Começou durante a pandemia, quando ouvi pela primeira vez a música “Baby”, sugerida por um aplicativo.
A canção começa com um vocal masculino e alterna a um coral de mulheres em ucraniano. Não compreendo uma palavra daquele canto, mas ele sempre me conduz a um lugar de bênção e de magia. As boas músicas têm esse poder: aproximam-nos do sagrado, seja qual for o idioma.
Quando, em março deste ano, encontrei-me com Oleksandra Matviichuk, advogada ucraniana laureada com o Nobel da Paz em 2022, falamos dos crimes documentados durante a guerra e o cotidiano de um povo obrigado a sobreviver sob bombardeios.
Na manhã seguinte, voltamos a conversar. Dessa vez, DakhaBrakha era minha carta na manga. Oleksandra sorriu; conhecia de cor. Perguntou se eu já havia escutado “Dytyatochko”, composição recente inspirada no roubo de crianças ucranianas pelas autoridades russas durante a guerra.
Respondi que não. E acrescentei, um tanto em choque, que aquela era a primeira vez que eu ouvia falar daquela prática.
De volta para casa, fui pesquisar mais sobre o assunto. Quanto mais pesquisava, mais percebia como é poderosa a máquina de propaganda russa no Brasil.
Enquanto memes mostram Vladimir Putin segurando cachorros e cultivam sua imagem de líder afável, passa quase despercebido que a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Ucrânia, vinculada à Organização das Nações Unidas, concluiu que autoridades russas cometeram crimes contra a humanidade por meio da transferência forçada e do desaparecimento de crianças ucranianas. A comissão analisou os casos de 1.205 crianças sequestradas; aproximadamente 80% ainda não haviam regressado.
Relatório recente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa afirma que cerca de 20 mil crianças foram deportadas ou transferidas ilegalmente desde o início da invasão em larga escala. O número real pode ser ainda maior, pois a destruição de registros e a alteração de identidades dificultam qualquer levantamento.
O Império Russo, a União Soviética e a Federação Russa não são regimes idênticos. Ainda assim, possuem continuidades: a imposição da língua russa, a perseguição a intelectuais ucranianos e a repressão aos movimentos de soberania.
Em 1863, a “Circular Valuev”, do Império Russo, proibiu a publicação de livros em língua ucraniana sob o argumento de que “nunca existiu, não existe e não pode existir uma língua ucraniana”.
Entre 1932 e 1933, milhões de pessoas morreram na Ucrânia soviética durante o Holodomor —”o extermínio pela fome”— imposto pelo regime de Josef Stalin. Quase um século depois, sob a liderança de Vladimir Putin, a Federação Russa aprofundou a ocupação iniciada em 2014 e, em 2022, lançou uma invasão em larga escala contra a Ucrânia, submetendo a população ao frio extremo, aos bombardeios e à destruição do ecossistema.
Entre tantas violências, centenas de mulheres e meninas ucranianas denunciaram violência sexual praticada por tropas russas nos últimos anos. Mulheres foram engravidadas; outras, transformadas em escravas sexuais dos soldados; outras ainda foram traficadas para diversos países, como denuncia Maryna Lehenka, presidente da organização La Strada. Diante do escândalo sexual do Banco Master, é necessário investigar se foram traficadas, inclusive para o Brasil.
A literatura ucraniana fala de casas invadidas, famílias dilaceradas e identidades obrigadas a se esconder para sobreviver. E o faz em ucraniano, orgulhosa de um idioma que projetos imperiais tentaram apagar.
No Festival Literário em Montreal, conheci a poeta Lyuba Yakymchuk, autora de “Apricots of Donbas”, ainda sem tradução para o português. Nascida na região de Luhansk, ela viu sua cidade natal ser ocupada por forças apoiadas pela Rússia em 2014 e transformou essa experiência em poesia.
Em entrevista à revista ucraniana Craft, no ano passado, explicou que faz questão de continuar escrevendo sobre Luhansk e Donetsk porque manter essas cidades presentes na literatura é também uma forma de as preservar.
“Primeiro vem o Exército e destrói tudo. Depois, a cultura russa continua o trabalho dos tanques, das metralhadoras e dos mísseis”, afirma. Para ela, quando o território já não pode ser alcançado, é preciso mantê-lo vivo pela poesia, pelo cinema e pela arte. A cultura torna-se, assim, outra forma de resistência à ocupação.
Continuo ouvindo DakhaBrakha sem compreender o idioma. O coro segue como uma reza de proteção contra dominações que podem ocupar cidades, destruir casas, sequestrar crianças, violentar mulheres e tentar apagar uma língua. Mas, ainda assim, haverá quem resista e reconstrua a vida pela memória, pela arte e pela palavra.
Fonte ==> Folha SP

