Duas cobranças ao jornal e uma frase que não existiu – 13/06/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Uma figura empunha uma bandeira que é, também, uma seta

Opinião, sabemos, cada um tem a sua. Não significa, porém, que o jornal possa passar por elas imperturbado. Dois casos recentes ilustram tensões no relato do que diz (e não diz) quem participa do debate público.

No último dia 4, o cientista político norte-americano Norman Finkelstein esteve na Feira do Livro, em São Paulo, em “mesa lotada e com segurança reforçada”, de acordo com título da Folha. Se o enunciado era relatorial, a chamada no site do jornal escolhia um trecho mais polêmico sobre israelenses: “O problema não é o regime, não é o governo, é toda a sociedade que enlouqueceu e todos se tornaram genocidas maníacos”. “O ódio sobre o que está acontecendo em Gaza, segundo ele, não é antissemitismo porque é justificado”, dizia o texto.

“Independentemente das opiniões que cada pessoa possa ter sobre o governo israelense, atribuir a uma sociedade inteira características morais degradantes e criminosas é uma forma clássica de preconceito coletivo. Trata-se da demonização de um povo”, afirmou a jornalista Nira Worcman, 63. Para ela, deveria haver “contextualização crítica”.

“A Folha tem dado palco para antissemitas disfarçados de ‘antissionistas’, forma contemporânea desse ódio”, escreveu Marcelo WS, 47, para quem o jornal “usa um judeu para justificar ódio contra judeus”. Finkelstein é filho de sobreviventes do Holocausto.

Na quinta (10), uma entrevista (“Israel fez o mundo voltar a odiar os judeus, diz Norman Finkelstein”) fazia questionamentos mais diretos e claros a Finkelstein sobre tópicos como o aumento de ataques de antissemitismo e a instrumentalização dos argumentos dele por antissemitas. O jornal também publicou texto de opinião crítico ao autor (“Norman Finkelstein erra o alvo e ecoa velhos estereótipos antissemitas”), com destaque semelhante.

“A Folha tem sido bastante cuidadosa ao tratar preconceitos dirigidos a diversos grupos sociais. Justamente por isso, acredito que o mesmo rigor deveria ser aplicado quando o tema envolve judeus e antissemitismo”, diz Worcman.

A Secretaria de Redação do jornal afirma que “o pluralismo e o equilíbrio de pontos de vista são pilares do projeto editorial que a Folha adota com o mesmo rigor em todos os casos”. “Isso inclui abrir suas páginas a críticas, réplicas e ao livre debate de ideias.”

De acordo com o Manual da Redação, “a Folha defende uma versão robusta da liberdade de expressão” e considera “toleráveis manifestações que muitos julgariam extremistas, como as que pedem o fim do regime democrático e o fechamento do Congresso e do STF, entre outras”. O documento pondera: “O direito de dizer o que se pensa não pode servir de guarda-chuva para o cometimento de outros crimes”. Já o verbete “racismo” do Manual, refeito em 2023, afirma que “o jornal estimula a produção de conteúdos que promovam maior conscientização sobre o racismo e sobre formas de superá-lo”.

Em outro caso, a Folha atribuiu a um entrevistado declarações que ele não dera. No texto “Theatro Municipal de SP não terá ópera identitária ou política, afirma novo gestor”, do dia 9, o maestro Edilson Ventureli expunha direções para o Theatro Municipal de SP, que passa a ser administrado pelo Instituto Baccarelli, do qual ele é diretor-executivo.

Segundo a versão original da reportagem, Ventureli afirmava “que irá procurar outros formas de dialogar com segmentos marginalizados, como gays, negros e indígenas”. E ainda: “Penso que o melhor que a gente pode fazer por essa turma toda não é colocá-la no palco” e “Você pode abrir espaço para eles dentro da própria plateia”.

O texto foi em frente, e o jornal deixou a polêmica para as redes sociais. “Uma fala com implicações tão graves como essa merecia ser tratada e debatida”, escreveu um leitor que cobrava “uma reflexão nas páginas do jornal”.

Na noite da sexta (12), porém, a Folha reconheceu que havia cometido um erro e que a declaração não existia. Segundo a correção, Ventureli “não disse que não colocaria no palco gays, negros e indígenas, como deu a entender o texto”: “A frase precisa, dita também em relação à adaptação de óperas, foi: ‘Eu penso que você, para estar próximo desses grupos marginalizados, não precisa colocá-los necessariamente no palco, você pode abrir espaço para eles dentro da própria plateia’.”

A correção (“Erramos”) informava também que “a declaração ‘Nós não temos a intenção de ter nada político ou identitário nas nossas produções’ (…) referia-se à prática da gestão anterior de adaptar óperas para atender a demandas contemporâneas de grupos minoritários, não à proposta geral de programação da nova gestão”.

Após o episódio, Ventureli declarou: “O que eu disse, e que não foi transportado para a matéria, é que as obras serão interpretadas sem alterações em sua mensagem original. Isso, porém, nunca significou, nem poderia significar, a exclusão de obras contemporâneas da programação. O Baccarelli sempre terá espaço para manifestações artísticas que democratizem a cultura. Trabalhamos há 30 anos para minorias sociais historicamente invisibilizadas, construímos um Teatro para dar palco a essa parcela da sociedade. Esse é o Baccarelli na favela de Heliópolis e no Theatro Municipal de São Paulo”.



Fonte ==> Folha SP

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