EUA em declínio e China em ascensão? Não por muito tempo – 16/05/2026 – Ross Douthat

Dois líderes, um dos Estados Unidos e outro da China, caminham lado a lado em um salão com tapete vermelho. À direita, fileira de bandeiras dos EUA e da China alternadas. Ao fundo, portas douradas e seguranças observam a cena.

Uma grande cúpula em Pequim é um momento natural para avaliar o estado da competição entre Estados Unidose China, a dinâmica do conflito entre grandes potências e o equilíbrio de forças nesta nova Guerra Fria —ou talvez apenas morna.

É também uma boa oportunidade para revisitar minhas próprias previsões. Seis anos atrás, nos primeiros dias do coronavírus, argumentei que, em vez de um “século chinês”, poderíamos estar diante de uma “década chinesa”: uma janela em que o poder da China atingiria seu pico e a posição americana estaria sob máxima ameaça, mas com um equilíbrio mais favorável aguardando os EUA na segunda metade do século, caso conseguíssemos atravessar esse auge ilesos.

Uma parte dessa análise estava simplesmente errada. Eu escrevia num momento em que a resposta dos EUA à pandemia parecia muito mais caótica do que a estratégia eficiente de contenção adotada por Pequim, e presumi que isso poderia render à China uma espécie de dividendo pós-Covid.

Em retrospecto, a abordagem vacilante da América se mostrou mais eficaz do que a chinesa no longo prazo. A República Popular acabou se vendo presa numa armadilha de lockdowns permanentes que gerou toda sorte de danos sociais e econômicos.

Em outros aspectos, porém, a década de 2020 transcorreu mais ou menos como eu esperava. O império americano tem sido pressionado em todas as frentes, e nossa liderança —decadente e senil na presidência anterior, arrogante e truculenta na atual— deu de presente à China uma reputação de relativa estabilidade, não obstante os próprios movimentos agressivos e repressivos de Xi Jinping.

Fala-se muito em reconstruir a manufatura americana, e a era Trump testemunhou um desacoplamento parcial entre EUAs e China, uma clara mudança em relação ao modelo “Chimérica” que definiu a década de 2010. Mas esse desacoplamento acontece à sombra de uma profunda vantagem industrial chinesa e de contínuos avanços científicos e tecnológicos do país.

Podemos debater o que significa a China estar logo atrás do Vale do Silício na corrida da inteligência artificial, mas nossa vantagem em modelos de fronteira não parece uma vantagem definitiva de hard power enquanto a China nos supera com folga na produção de máquinas-ferramenta, robôs, navios e drones.

Há seis meses, eu me contava uma história otimista sobre o equilíbrio de segurança nacional: os EUA mantinham vantagem em experiência de combate, com nosso apoio à Ucrânia contra a Rússia e nossas intervenções no Irã e na Venezuela servindo como campo de testes para novas armas e táticas habilitadas por inteligência artificial.

Mas assistir ao desgaste do arsenal militar americano sob a pressão de uma guerra regional contra o Irã neste ano deveria deixar qualquer um cético quanto à suficiência de nossas vantagens para um conflito prolongado no Leste Asiático. Lutar contra o Irã até um impasse parece o tipo de desfecho que precede uma guerra contra a China e uma derrota.

O mundo dos anos 2020, portanto, parece ter pendido para o lado da China em aspectos muito importantes. Na medida em que as comparações com a Guerra Fria original são pertinentes, a China é uma competidora materialmente mais poderosa do que a União Soviética jamais conseguiu ser, e nossa aposta iraniana, até agora malsucedida, deixou a posição de hard power americana em situação tão precária quanto já esteve.

Mas e o mundo das décadas de 2040 ou 2060? Seis anos atrás, escrevi que a taxa de crescimento da China poderia estar desacelerando, tornando menos provável que ela alcançasse os padrões de vida de seus vizinhos do Leste Asiático ou eclipsasse os EUA como a maior economia do mundo. Desde então, a tentativa chinesa de consolidar uma ampla esfera de influência econômica por meio de sua Iniciativa Cinturão e Rota sofreu repetidos reveses.

E, como se verificou, 2021 marcou o ponto de maior convergência do PIB nominal com o dos EUA; desde então, os EUA cresceram mais rapidamente enquanto a China enfrentava a ressaca da Covid e uma série de problemas internos —o que levanta a possibilidade de que nunca chegue o momento em que a economia chinesa seja a maior do mundo.

Talvez devêssemos chamar isso de probabilidade, não de mera possibilidade, já que é extraordinariamente difícil sustentar altas taxas de crescimento em condições de envelhecimento populacional acelerado. E a outra grande tendência dos últimos seis anos é que a situação demográfica da China hoje parece muito, muito pior do que se imaginava.

O fim da política do filho único em 2016 deveria impulsionar as taxas de natalidade. Em vez disso, a taxa de fecundidade chinesa não parou de cair, atingindo uma média de 1,0 nascimento por mulher ao longo da vida em 2025, metade do nível de reposição, num quarto ano consecutivo de declínio populacional.

As tendências sociais preocupantes que recebem atenção justificada nos EUA —o distanciamento entre os sexos, a perda de interesse no casamento e na família— parecem ter avançado de forma muito mais acelerada na China. Um estudo recente sobre as atitudes dos jovens chineses revelou que 32% dos entrevistados entre 18 e 24 anos declararam não ter “nenhum desejo de ter filhos”, ante 5% em 2012.

Esses dados formam um contraponto impressionante às evidências de crescente confiança chinesa, beirando a arrogância, quanto à inevitabilidade do declínio americano.

Afinal, quão confiantes podem estar os chineses no futuro de sua civilização se a geração mais jovem demonstra tão pouco interesse em se reproduzir? Quão seguros podem estar os líderes da China de que sobreviverão aos EUA se sua população pode ser reduzida à metade nas próximas gerações? Quanto poder, duro ou brando, sendo que a influência cultural global da China permanece notavelmente limitada, uma civilização em rápido envelhecimento pode esperar projetar?

No mínimo, qualquer cenário em que o poder chinês não arrefeça precisa envolver uma ruptura tecnológica radical: um mundo em que robôs e inteligência artificial assumam uma parcela extraordinária do trabalho econômico e criativo; um mundo em que avanços radicais na saúde tornem o envelhecimento populacional muito menos relevante do ponto de vista econômico; ou um mundo em que a tecnologia revolucione a reprodução humana, tornando possível para Estados autoritários promover o repovoamento — como o Estado Mundial com suas incubadoras em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.

Em qualquer desses cenários, uma eventual era chinesa na história humana não se parecerá com nenhuma época ou império que já conhecemos. Já se imaginarmos um futuro que permaneça ao menos razoavelmente normal, razoavelmente humano, ainda parece sensato apostar contra o século chinês e acreditar que o poder de Pequim está atingindo seu pico agora ou em breve.

A grande questão, então, é se Xi enxerga o mundo dessa forma. Na medida em que acreditamos na narrativa da confiança chinesa —na expectativa tranquila do Império do Meio de que os problemas da América fazem parte de um longo arco de declínio ocidental—, devemos torcer para que possamos atravessar este momento sem um confronto fatal.

A arrogância chinesa, nesse sentido, pode ser a melhor garantia da paz mundial: ela levaria Pequim a esperar e esperar antes de testar seu poder contra o nosso, a adiar e adiar a reivindicação de Taiwan… para descobrir, na espera, que sua melhor chance já passou.

Mas Xi e seu círculo certamente enxergam todas as tendências que acabo de descrever. E se eles não depositam confiança plena numa revolução tecnológica, se não se iludem quanto às perspectivas de colapso americano, então é de se esperar que tenham um plano para um confronto potencial —e muito, muito em breve.



Fonte ==> Folha SP

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