Inflação e juros enrolam Lula – 01/05/2026 – Opinião

Homem de barba e chapéu branco veste camisa vermelha e fala ao microfone em púlpito. Duas bandeiras do Brasil estão posicionadas atrás dele em ambiente interno.

Como esperado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho para anunciar o Desenrola 2, segunda versão de seu programa para refinanciar dívidas de famílias. Um dia antes, também como esperado, o Banco Central deu notícias incômodas sobre a inflação e a taxa de juros.

Por mais bem-vinda que seja a redução da Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, evidencia-se o patamar ainda extraordinariamente elevado da taxa, em grande medida causado pela gestão perdulária das contas públicas. As perspectivas de alívio monetário, ademais, tornaram-se mais incertas.

A motivação do BC para manter o ritmo cauteloso do ajuste reside no cenário inflacionário complexo. As cotações do petróleo dispararam com o agravamento dos conflitos no Oriente Médio, elevando custos em toda a cadeia produtiva. No plano doméstico, a atividade não desacelerou o bastante para conter pressões de preços como a do setor de serviços.

Esses fatores tornam mais árdua a convergência do IPCA para a meta de 3%, como indicado nas projeções do Banco Central. Para este ano, a estimativa passou de 3,9% na reunião anterior para 4,6% agora; para o horizonte relevante em 2027, o número subiu de 3,3% para 3,5%. As expectativas de mercado são ainda piores, de 4,9% e 4%, respectivamente.

O aumento da incerteza em torno dessas previsões —agravado pela falta de clareza quanto à duração e ao alcance dos choques geopolíticos— justifica que o Comitê de Política Monetária (Copom) avance com cautela redobrada no ciclo de corte dos juros. Tanto que, em seu comunicado, o colegiado não se compromete com movimentos futuros.

Em que pese a conjuntura externa desfavorável, o patamar anômalo da Selic, que se espraia pelas taxas de mercado, não pode ser dissociado das escolhas imprudentes do próprio governo. Ao longo de todo este terceiro mandato de Lula, a expansão de gastos públicos foi ininterrupta, pressionando a demanda e elevando temores em relação à solvência da dívida pública.

Não é surpresa, assim, que o endividamento e o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de juros e amortizações continuem em nível recorde mesmo depois da primeira edição do programa Desenrola, lançada em 2023.

Ao elevar o custo de capital, o governo contribui diretamente para o aperto no orçamento doméstico, o aumento da inadimplência e o recurso crescente a modalidades caras de crédito.

A poucos meses da eleição presidencial, o Desenrola 2 pode até produzir algum efeito prático e imediato para devedores de baixa renda, ao facilitar renegociações com descontos expressivos.

Sem queda firme da inflação e dos juros, porém, seu alcance tende a ser limitado e pontual. Lula terá dificuldade para se desenrolar de consequências das más escolhas econômicas de sua gestão.

editoriais@grupofolha.com.br



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *