Interior paulista vive corrida por loteamentos e acende alerta sobre infraestrutura urbana

Christian Wesley Gonzaga de Sousa

Expansão acelerada de terrenos residenciais atrai investidores e famílias em busca de imóveis mais acessíveis, mas avanço desordenado preocupa especialistas

O interior de São Paulo se consolidou em 2026 como uma das principais fronteiras do mercado imobiliário brasileiro e os loteamentos têm liderado esse movimento. Impulsionados por preços mais acessíveis que imóveis prontos, crescimento populacional em cidades médias e busca por qualidade de vida fora dos grandes centros, os terrenos urbanizados passaram a atrair desde famílias que desejam construir a própria casa até investidores em busca de valorização patrimonial.

Os números mostram a força desse avanço. Segundo levantamento do Secovi-SP, as 41 cidades do interior paulista, regiões metropolitanas e Baixada Santista monitoradas pela entidade registraram 73 mil unidades comercializadas em 2025, alta de 17% em relação ao ano anterior, com VGV recorde de R$ 37 bilhões.

O avanço do interior paulista também aparece nos números do mercado imobiliário regional. Dados da Brain Inteligência Estratégica apresentados durante o GRI Interior de São Paulo mostram que o mercado de incorporação residencial movimentou R$ 12,7 bilhões em VGV em 2025, com alta de 44,5% nos lançamentos e crescimento de 87,7% nas vendas, refletindo o avanço da demanda por novos empreendimentos, incluindo loteamentos e projetos horizontais no interior.

Em outra frente, o mercado paulista vendeu 51,7 mil lotes em 2025, número 15% superior ao ano anterior, enquanto a redução na oferta formal começou a acender alerta para o avanço de loteamentos irregulares e expansão urbana sem planejamento adequado.

Nos bastidores do setor, o movimento reflete mudanças econômicas e comportamentais. O custo elevado dos imóveis nas capitais, o avanço do trabalho híbrido, a busca por cidades com melhor qualidade de vida e o crescimento de polos regionais como Campinas, Ribeirão Preto, Sorocaba e São José do Rio Preto vêm redesenhando o mapa imobiliário paulista.

Para Christian Wesley Gonzaga de Sousa, engenheiro civil da Verderello Engenharia e especialista em incorporação e viabilidade de loteamentos, o mercado vive um momento de oportunidade, mas também de risco. O crescimento acelerado também pode gerar problemas estruturais.

Sem planejamento urbano adequado, cidades podem enfrentar gargalos em mobilidade, saneamento, abastecimento de água, drenagem, energia e serviços públicos. Em muitos casos, o loteamento é lançado antes que a infraestrutura pública acompanhe o aumento populacional.

Com atuação em engenharia, incorporação e viabilidade imobiliária, Christian afirma que muitos empreendimentos ainda ignoram fatores fundamentais antes do lançamento. “Muita gente olha apenas para o potencial de venda do terreno, mas esquece de avaliar drenagem, mobilidade urbana, capacidade da rede de água, energia e impacto no entorno. Isso pode gerar problemas futuros tanto para o empreendedor quanto para quem compra.”

Segundo ele, a profissionalização do setor será decisiva nos próximos anos. “O mercado de loteamentos está amadurecendo. Quem fizer projetos com planejamento urbano real, infraestrutura adequada e visão de longo prazo tende a se destacar. Quem apostar apenas em expansão rápida pode enfrentar dificuldades.”

Christian também afirma que a expansão do interior deve continuar atraindo investidores, mas com maior exigência técnica. “O consumidor está mais informado. Ele quer segurança jurídica, infraestrutura pronta e potencial real de valorização. Isso muda completamente a forma como os empreendimentos precisam ser planejados.”

Na avaliação do especialista, o interior paulista se tornou símbolo de uma nova corrida por terrenos. O desafio agora será crescer sem repetir problemas urbanos que historicamente marcaram grandes centros brasileiros.

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