Mamdani perde talento quando divide judeus e muçulmanos – 03/08/2026 – Thomas L. Friedman

Homem de terno escuro e gravata senta-se à mesa com as mãos entrelaçadas. Ao fundo, bandeiras dos Estados Unidos e da cidade de Nova York estão posicionadas em um ambiente formal.

Não sei que tipo de prefeito de Nova York Zohran Mamdani vai se tornar, mas ele já provou ser uma decepção como homem público.

Nova York é a única cidade do mundo onde vivem lado a lado pelo menos 750 mil judeus e outros 750 mil muçulmanos. Em vez de atuar como um construtor de pontes entre eles, Mamdani, o primeiro prefeito muçulmano da cidade, optou por ser um destruidor de pontes —usando o conflito de Israel e Palestina como seu machado.

É um desperdício lamentável de um talento político verdadeiramente carismático.

Considere a travessura recente de Mamdani: ameaçar prender o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, quando ele for a Nova York para a reunião das Nações Unidas, em setembro. O Tribunal Penal Internacional expediu um mandado de prisão contra Netanyahu em 2024, alegando que ele cometeu crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza.

Embora Mamdani tenha acabado por reconhecer que a Prefeitura não tem essa autoridade legal —e, em vez disso, tenha apelado ao governo federal para cumprir o mandado dias antes da visita do líder israelense a Washington—, foi exatamente o tipo de munição que Netanyahu usará em sua campanha para ser reeleito em 27 de outubro. Eu mesmo poderia escrever o comercial de campanha de Bibi: “O único lugar seguro para os judeus é Israel. Basta olhar para o que está acontecendo em Nova York. O único líder capaz de proteger os israelenses sou eu: Bibi”.

A meu ver, as posições extremas de Mamdani e de Netanyahu são dois lados da mesma moeda: Bibi não reconhece o direito do povo palestino à autodeterminação em sua pátria nacional e acredita que apenas Israel deve governar o território que se estende do mar Mediterrâneo ao rio Jordão. No entanto, os palestinos são um povo —mais de 7 milhões deles vivem nesse espaço— e não vão desaparecer nem abrir mão do direito de constituir um Estado, independentemente da fantasia em contrário alardeada por Bibi e seus seguidores.

O que Bibi realmente vende é uma guerra perpétua entre israelenses e palestinos. Hoje, ele permite que colonos na Cisjordânia destruam aldeias palestinas, e, quando os moradores resistem, seu governo chama isso de terrorismo.

Mamdani tampouco defende a solução de dois Estados. Ele argumenta que os judeus não têm direito à autodeterminação em um Estado próprio —um Estado judeu em sua terra bíblica, nessa mesma região que vai do Mediterrâneo ao Rio Jordão. Porém, mais de 7 milhões de judeus também vivem ali e tampouco vão embora ou abrirão mão do direito a um Estado judeu —não importa o que digam Mamdani e outros socialistas democráticos. Assim, na prática, eles também estão promovendo uma guerra perpétua.

E se Mamdani realmente quisesse atuar como um construtor de pontes entre israelenses e palestinos, papel para o qual tem capacidade e talento ímpares?

Se quisesse, ele declararia a intenção de, no dia em que Bibi chegasse a Nova York para a Assembleia Geral da ONU, convocar um seminário em seu gabinete e convidar especialistas israelenses, palestinos, árabes, muçulmanos e judeus para debater a única solução justa e estável: como criar dois Estados independentes para dois povos que habitam a região entre o rio e o mar.

Ele convidaria representantes sauditas para discutir a Iniciativa de Paz Árabe, apresentada nesta mesma coluna em 2002 pelo príncipe herdeiro saudita Abdullah bin Abdul Aziz al-Saud. Convidaria Bill Clinton, Barack Obama e George W. Bush para que cada um expusesse seus planos de dois Estados para dois povos. Convidaria líderes palestinos como Salam Fayyad, ex-primeiro-ministro da Autoridade Palestina — que tanto fez em sua gestão para construir instituições destinadas a um Estado palestino ao lado de Israel—, a fim de debater como reativar esse esforço hoje.

O mais importante: ele convidaria representantes de organizações judaico-árabes que buscam viabilizar dois Estados para dois povos, como a Abraham Initiatives. Não confundir com os Acordos de Abraão; trata-se de uma organização em Israel voltada à reconciliação entre cidadãos palestinos e judeus no país. (Já doei dinheiro para o grupo.)

Ele convidaria representantes da EcoPeace Middle East, uma organização israelense-palestina-jordaniana dedicada a promover a reconciliação por meio de projetos ambientais conjuntos. (Também já fiz doações para ela.) E convidaria o novo partido israelense A Place for Us All (um lugar para todos nós), criado antes do próximo pleito com uma lista conjunta de palestinos e judeus israelenses, liderado por Rula Daoud e Alon-Lee Green.

Em artigo publicado no jornal Haaretz, Green explicou que a nova legenda “não é um partido judeu (com representação árabe simbólica) nem um partido árabe (com representação judaica simbólica), mas sim um partido árabe-judaico conjunto”. A proposta do grupo é construir “uma paz que trará tanto o fim da ocupação quanto a criação de um Estado palestino independente, lado a lado com o Estado de Israel”.

Por fim, para agregar um toque de celebridade, ele poderia convidar a atriz Natalie Portman. Fiquei muito impressionado com o discurso que ela fez recentemente em um evento virtual de arrecadação de fundos para o A Place for Us All.

De acordo com uma reportagem do Haaretz, Portman “enfatizou sua identidade como mulher judaica e cidadã israelense, lembrando que seu pai nasceu e cresceu em Israel e que sente : “um amor profundo, como muitos de vocês também sentem, pelas pessoas desta região —todas as pessoas desta região—, pela terra e pelo futuro”.

Como Portman disse aos apoiadores do partido: “Vocês lutaram pelo retorno dos reféns. Mantiveram-se firmes contra a guerra de aniquilação e a favor das crianças de Gaza. Exigiram ruas mais seguras, salários mais justos. O establishment quer nos convencer de que isso é impossível, de que uma parceria real é inviável. Querem minimizar o que esses líderes incríveis estão fazendo aqui, agora, e estão aterrorizados com o que este movimento representa”.

É assim que soa uma liderança construtiva. O partido A Place for Us All ainda aparece nas pesquisas muito abaixo da cláusula de barreira necessária para conquistar um assento no Knesset. Contudo, o movimento está apenas no começo.

Se você prefere uma versão mais pragmática dessa mensagem, vale acessar o site do Commanders for Israel’s Security, entidade que reúne quase 600 coronéis e generais reformados do Exército israelense, além de veteranos do Mossad, do Shin Bet (segurança interna), da polícia e do corpo diplomático, todos empenhados em se opor à anexação da Cisjordânia por Israel e em trabalhar por uma solução de dois Estados.

Imagine se Mamdani, em vez de se dedicar a um artifício inútil ao cogitar publicamente a prisão de Netanyahu, reunisse todos esses defensores israelenses, palestinos, árabes e americanos da solução de dois Estados para dois povos e, em seguida, convidasse Netanyahu para discursar perante eles. Deixemos que o próprio Bibi seja aquele que dirá: “Não, não quero ter relação alguma com defensores israelenses, palestinos, árabes e americanos da solução de dois Estados para dois povos”.

Isso enviaria ao menos uma mensagem aos eleitores israelenses de centro-direita, centro e esquerda de que o mundo não os odeia, de que o prefeito de Nova York não está caçando-os e de que tudo o que a comunidade internacional deseja é ver israelenses e palestinos atuando como parceiros construtivos, prontos para explorar a única alternativa realista a uma guerra perpétua.

Não faço ideia se isso ajudaria. Mas tenho certeza absoluta de que a atitude de Mamdani serve apenas para fabricar eleitores para Netanyahu entre aqueles israelenses que veem em Bibi seu único protetor e, em sua postura de linha-dura, sua única salvação.

Se é isso o que Mamdani deseja fazer agora com seu palanque —lançar mais lenha em uma fogueira que já arde muito bem por conta própria—, trata-se de um triste desperdício de seu talento, do seu cargo, do seu fôlego e do nosso tempo.



Fonte ==> Folha SP

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