O que um diretor de concessão precisa enxergar antes que um aeroporto se torne um problema

Mariana Soares

Especialistas apontam que o maior desafio das concessões aeroportuárias não está apenas na infraestrutura, mas na capacidade de transformar informações operacionais em decisões estratégicas capazes de gerar retorno sobre o investimento.

O avanço das concessões aeroportuárias no Brasil tem ampliado as oportunidades para modernizar a infraestrutura e impulsionar o desenvolvimento regional. No entanto, à medida que novos operadores assumem a gestão de aeroportos, cresce também um desafio menos visível: tomar decisões estratégicas sem uma visão integrada da operação.

Embora investimentos em pistas, terminais, equipamentos e sistemas sejam fundamentais, especialistas do setor defendem que o verdadeiro diferencial competitivo está na qualidade das decisões tomadas ao longo da concessão. Nesse contexto, ganha força o conceito de visibilidade operacional, entendido como a capacidade de compreender toda a operação aeroportuária de forma integrada, permitindo que gestores antecipem riscos, identifiquem oportunidades e direcionem investimentos com maior precisão.

A nova realidade das concessões aeroportuárias

Nos últimos anos, o setor aeroportuário brasileiro passou por uma profunda transformação com a ampliação da participação da iniciativa privada na administração de aeroportos regionais.

Esse novo cenário elevou o nível de exigência sobre concessionárias e investidores. Mais do que manter a operação funcionando, tornou-se necessário maximizar o retorno dos ativos, ampliar receitas, melhorar indicadores operacionais e garantir previsibilidade para decisões de longo prazo.

Segundo Mariana Soares, fundadora e CEO da Auter Airports, esse contexto exige uma mudança na forma como as concessões são administradas.

“O maior risco de uma concessão aeroportuária não está na operação. Está no que a gestão não consegue ver antes que vire problema.”

A especialista explica que muitos aeroportos possuem equipamentos modernos e diversos sistemas de monitoramento, mas isso, por si só, não significa que a gestão tenha uma compreensão completa da operação.

Monitorar não é o mesmo que enxergar

Um dos conceitos centrais defendidos por Mariana Soares é a distinção entre monitorar e enxergar.

Na prática, monitorar significa registrar eventos isolados por meio de câmeras, sensores, controles de acesso ou outros equipamentos. Já enxergar representa reunir essas informações em um contexto único, permitindo compreender como toda a operação se comporta e como cada decisão impacta os resultados da concessão.

Segundo a executiva, essa diferença influencia diretamente decisões relacionadas à expansão da infraestrutura, gestão de contratos, planejamento operacional e geração de novas receitas.

“O setor confundiu monitorar com enxergar. E passou a tomar decisões de capital sobre essa confusão.”

O custo das decisões tomadas sem visibilidade

Para investidores e diretores de concessão, decisões raramente produzem efeitos imediatos.

Projetos de expansão, investimentos em infraestrutura, desenvolvimento de áreas comerciais ou novos serviços podem levar meses ou anos até demonstrarem seus resultados financeiros.

O problema, segundo Mariana, é quando a organização descobre que determinada estratégia estava equivocada apenas depois de comprometer recursos significativos.

“Numa concessão aeroportuária, a pergunta mais importante não é se uma decisão foi certa ou errada. É em que momento ela poderia ter sido corrigida.”

Nesse cenário, a visibilidade operacional deixa de ser apenas uma ferramenta de acompanhamento e passa a funcionar como um mecanismo para reduzir riscos e permitir ajustes ao longo da execução da estratégia.

Dados passam a ser um ativo da concessão

Outro ponto destacado pela Auter Airports é a mudança de percepção sobre os dados produzidos diariamente pela operação aeroportuária.

Tradicionalmente vistos apenas como registros administrativos, esses dados passam a assumir valor estratégico quando estruturados desde o início da concessão.

Conforme defende Mariana Soares, informações organizadas permitem compreender tendências, acompanhar indicadores de desempenho, identificar oportunidades de receita não tarifária e embasar decisões relacionadas à alocação de capital.

“Dado estruturado desde o início da concessão é um ativo que valoriza com o tempo. Dado que nunca foi estruturado é uma dívida que vai cobrar juros.”

Um novo olhar para a gestão aeroportuária

Fundada durante a pandemia e desenvolvida sem capital externo, a Auter Airports atua na criação de soluções voltadas à inteligência operacional para concessões aeroportuárias. Atualmente, a empresa opera em aeroportos brasileiros, incluindo ambientes de alta complexidade com validação em auditorias internacionais, sempre direcionando sua atuação para o fortalecimento da gestão e da governança operacional.

Para Mariana Soares, o debate sobre o futuro da infraestrutura aeroportuária brasileira precisa ir além da tecnologia.

Na sua avaliação, o verdadeiro diferencial competitivo das novas concessões será a capacidade de transformar informações dispersas em conhecimento capaz de orientar decisões estratégicas.

À medida que os aeroportos regionais assumem papel cada vez mais relevante para o desenvolvimento econômico do interior do país, compreender a operação como um todo tende a se tornar um dos principais fatores para garantir eficiência, sustentabilidade financeira e geração de valor ao longo de toda a concessão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *