Por que Vance ainda supera Rubio na sucessão de Trump – 31/07/2026 – Ross Douthat

Dois homens de terno escuro e gravata conversam próximos em ambiente com outras pessoas ao fundo. Um deles usa gravata vermelha e o outro gravata vinho.

Durante o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, o vice-presidente J. D. Vance atuou principalmente como o “durão” designado pela Casa Branca. Em vez de suavizar a aspereza de Trump, ele foi incumbido de ser (ou escolheu ser) mais duro que o próprio presidente —fosse pressionando publicamente o presidente ucraniano Volodimir Zelenski, defendendo a repressão à imigração em Minneapolis ou realizando uma viagem simbólica à Groenlândia, o objeto gelado do desejo do presidente.

Nos últimos meses, o papel de Vance mudou. Ele foi o principal cético interno quanto à decisão do presidente de atacar o Irã e, posteriormente, tentou atuar como o diplomata capaz de desatar o nó iraniano. Ele também embarcou em uma turnê de lançamento de livro, de certa forma culturalmente conciliadora, e viu o nascimento de um novo filho.

Como considero a guerra com o Irã uma insensatez e uma armadilha, prefiro muito mais essa versão da vice-presidência de Vance àquela que parecia absorvida por uma política conservadora movida por impulsos viscerais.

Em contrapartida, embora eu tenha considerado a atuação de Marco Rubio em seu primeiro ano como secretário de Estado extremamente eficaz, sua postura em relação ao Irã tem sido marcada pela esquiva: ele deixa que outras autoridades assumam os riscos —seja para abraçar a guerra ou buscar a paz— enquanto mantém suas próprias opções em aberto.

A política do Partido Republicano, no entanto, muitas vezes não segue as minhas preferências; a versão de Vance que eu prefiro é também aquela que, aos olhos de seus adversários internos no partido, parece politicamente enfraquecida. De ataques coordenados na internet a críticas contundentes do The Wall Street Journal e de Ben Shapiro, há uma sensação palpável, entre os setores da direita céticos em relação a Vance, de que o vice-presidente está excepcionalmente vulnerável e de que um cenário com Rubio em 2028 pode, de fato, ser viável.

Os céticos em relação a Vance têm alguns dados a seu favor. Rubio avançou sobre Vance em uma nova pesquisa para as primárias de 2028 em New Hampshire e não está muito atrás do vice-presidente nos mercados de apostas. Além disso, pode-se argumentar que ter acertado inicialmente sobre a guerra com o Irã não traz grandes vantagens políticas para o vice-presidente.

Primeiro, mesmo em meio às crescentes dúvidas sobre o conflito, a maior parte da base republicana não quer ouvir que o presidente cometeu um erro terrível ao entrar em guerra; e, de qualquer forma, um vice-presidente não pode fazer campanha dessa maneira. E, como Vance não pode fazer campanha dessa maneira —já que precisa defender seu chefe—, sua posição também não agradará plenamente a ala da direita contrária à guerra, seja ela representada por Tucker Carlson ou Joe Rogan.

Esse dilema poderia ter sido resolvido com um acordo de paz articulado por Vance, permitindo que o vice-presidente creditasse ao presidente Trump uma suposta vitória, ao mesmo tempo em que ganharia seu próprio reconhecimento como negociador junto àqueles que enxergam a situação com clareza.

Mas, obviamente, os esforços para encerrar a guerra ainda não deram certo, e o memorando de entendimento de junho entre os Estados Unidos e o Irã —negociado principalmente por Vance— encontra-se atualmente à deriva no estreito de Hormuz, crivado de balas.

Pode-se dizer, então, que ele está agora em uma situação de impasse: serve de bode expiatório para os defensores de uma linha dura que acham o governo pouco enérgico, mas não obteve sucesso diplomático suficiente para satisfazer os conservadores que buscam um pacificador.

No entanto, o desafio para os críticos de Vance é que não basta uma narrativa segundo a qual a guerra com o Irã lhe causou diversos problemas políticos. É preciso uma história em que ele esteja tão enfraquecido a ponto de o próprio Trump decidir favorecer Rubio como sucessor —pois é impossível que o secretário de Estado faça campanha contra o vice-presidente sem a aprovação tácita de Trump.

Tal cenário era imaginável no início da guerra. Se o conflito tivesse corrido bem, a oposição de Vance teria parecido insensata, e Rubio poderia então ter se posicionado como o defensor de uma política externa agressiva e bem-sucedida.

Mas, na situação atual de dificuldade e impasse, não há indícios de que Trump veja Vance com mais ceticismo devido à sua oposição inicial à guerra. De fato, há relatos de que o presidente passou a ver o vice-presidente com melhores olhos nos últimos meses —embora a perda de peso de Vance receba parte do crédito por essa mudança.

Além disso, alguns dos comentários de Vance sobre a guerra que mais geraram polêmica, especialmente suas críticas à postura de Israel, quase certamente refletem as frustrações do próprio presidente.

Então, como chegaríamos a um cenário em que Rubio se torna o sucessor natural? Se a guerra se arrastar em um impasse e terminar de forma vexatória para os EUA, não consigo imaginar uma campanha bem-sucedida nas primárias republicanas baseada na premissa de que Vance é excessivamente pacifista ou contrário a intervenções.

Se Trump intensificar as hostilidades e a guerra se transformar em um fiasco ainda maior, isso será ruim para todos os seus potenciais sucessores, mas dificilmente beneficiará um movimento para descartar Vance.

Isso deixa apenas um cenário em que Trump intensifica drasticamente a situação; seu vice-presidente se opõe à escalada enquanto seu secretário de Estado a defende; e o regime iraniano entra em colapso —levando consigo os preços da gasolina—, deixando Trump com Rubio para agradecer pela vitória e Vance para culpar por ter tentado impedi-la.

Esse é o futuro no qual eu poderia apostar em Rubio para 2028. Mas também não é um futuro em cuja concretização eu apostaria.



Fonte ==> Folha SP

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