Stablecoins: mercado atinge US$ 315 bi; entenda – 01/08/2026 – Roberto Campos Neto

Stablecoins: mercado atinge US$ 315 bi; entenda - 01/08/2026 - Roberto Campos Neto

Em coluna anterior, explorei o crescimento acelerado das stablecoins, suas potencialidades e os riscos que começavam a emergir: dolarização gradual de economias menores e desintermediação bancária. Os números desde então continuam a surpreender. O volume total de stablecoins saltou de menos de US$ 7 bilhões em 2020 para mais de US$ 315 bilhões na primeira metade de 2026.

Dois emissores dominam o mercado: a Tether, com cerca de US$ 190 bilhões em circulação, e a Circle, com aproximadamente US$ 80 bilhões. Em 2025, o volume ajustado de transações cresceu 91%, chegando a quase US$ 11 trilhões —cifra comparável ao processamento anual da Visa. A tecnologia mostra que o dinheiro pode mover-se na velocidade da internet. O que ainda não provou é se esse movimento vai na direção correta.

A evidência mais recente sugere um paradoxo: quanto mais crescem as stablecoins, mais se afastam do propósito original para o qual foram concebidas. Nasceram como meio de pagamento: instantâneo, barato, sem fronteiras. Mas comportam-se cada vez mais como reserva de valor e grande parte de suas aplicações está restrita a negociações no ecossistema cripto.

O Genius Act, aprovado nos EUA em julho de 2025, proibiu que tokens de pagamento remunerem juros diretamente ao detentor. Em vez de matar o rendimento, a lei bifurcou o mercado: de um lado, tokens “puros” como USDT e USDC; de outro, uma classe crescente de produtos que repassam retornos de 3% a 5% investindo em títulos do Tesouro americano.

O apelo é interessante: em economias de alta inflação, esses instrumentos funcionam como uma poupança que o aumento de preços não consegue facilmente corroer — e a demanda por eles é especialmente forte exatamente onde as moedas locais são menos confiáveis.

Pesquisa recente de Wenxin Du, Catherine Huang e David Scharfstein (Competing Rails for Cross-Border Payments: Banks, Fintechs and Stablecoins) desmonta outro mito: o de que stablecoins barateiam remessas internacionais. Uma transferência via stablecoin não é um salto direto — é o que os autores chamam de “sanduíche”: conversão de moeda local em token, movimentação na blockchain e reconversão no destino. A transferência em si custa poucos centavos, mas o pão do sanduíche é caro: taxas nas exchanges chegam a 100 pontos-base, e custos fixos penalizam valores pequenos. Fintechs como Wise e Remitly comprimem o custo das remessas a valores frequentemente mais baratos.

Além disso, onde stablecoins parecem vantajosas (em países com restrições cambiais) a vantagem é ilusória. O que parece uma economia é, na verdade, o preço pago para contornar controles de capital que limitam o acesso ao dólar. Não é eficiência tecnológica; é uma distorção do mercado. E a baixa liquidez nesses mercados gera volatilidade e perdas em transferências de valores maiores.

Se o caso da eficiência é mais fraco do que parece, o tema da governança também merece atenção. É o coração da palestra recente de Gita Gopinath no BIS, intitulada Stablecoins and Anonymous Money, baseada em trabalho com Kyle Calder, Wenxin Du e Jeremy Stein.

Mas aqui é preciso uma distinção crucial: os problemas concentram-se no uso não regulado das stablecoins, especialmente quando mantidas em carteiras de autocustódia. Por décadas, a política pública conduziu o dinheiro para longe do anonimato —retirando notas de alto valor, diminuindo o sigilo bancário, construindo mecanismos que permitem cobrar impostos, aplicar sanções e combater crimes financeiros.

O uso de stablecoins em carteiras de autocustódia, onde o detentor controla a chave criptográfica sem intermediário identificável, anda na direção contrária: 70% a 75% do USDT e USDC estão nessa modalidade, o equivalente digital do dinheiro vivo.

Endereços ilícitos receberam mais de US$ 150 bilhões em 2025, com stablecoins respondendo por 84% do volume ilícito em cripto. Regulação que alcança apenas emissores e exchanges centralizadas tem efeito limitado, pois boa parte da atividade flui além do seu perímetro. A solução exige regulação mais abrangente e coordenação internacional. Vale ressaltar, contudo, que a digitalização não cria a ilicitude. É o crime que antes usava papel moeda que se desloca para o ambiente digital.

A isso se somam dois riscos macroeconômicos que já mencionei na coluna anterior sobre o tema. A dolarização involuntária: onde a moeda local é menos confiável, as stablecoins substituem depósitos domésticos e enfraquecem a política monetária. E a desintermediação bancária: produtos com rendimento competem pelos depósitos que financiam o crédito, comprometendo o mecanismo pelo qual esses depósitos financiam empréstimos.

Importa, contudo, não perder de vista o quadro maior. A tokenização da economia tem avançado rapidamente, é irreversível, e traz ganhos reais de eficiência na intermediação financeira, na gestão de ativos e na liquidação de pagamentos. Nesse ambiente, dinheiro programável é uma necessidade. Os desvios nas stablecoins não reguladas são, em boa medida, resultado da ausência de uma alternativa pública à altura. Os bancos centrais ainda não fornecem moeda digital programável suficiente e o mercado tem preenchido essa lacuna. A resposta, portanto, não é resistir à tokenização, mas liderar sua evolução. Stablecoins reguladas, com transparência de reservas e supervisão adequada, são parte da solução.

O Drex, concebido pelo Banco Central do Brasil para trazer programabilidade e eficiência das finanças descentralizadas ao ambiente regulado, viabilizando crédito lastreado em ativos digitais sem abrir mão do controle monetário, é a proposta mais completa nesse sentido e pode servir de modelo para outros bancos centrais. As stablecoins revelaram a demanda. Cabe aos bancos centrais, com regulação inteligente e infraestrutura adequada, prover os instrumentos para essa crescente economia tokenizada.



Fonte ==> Folha SP

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