Sou uma mulher das palavras, do transbordamento dos afetos, do apreço pela subjetividade e de um certo gosto pela melancolia. Acho bonito habitá-la, e mais bonito ainda respeitar as impotências —minhas e do outro.
Ele é um homem dos atos, da contenção que sustenta, da presença inteira que prioriza os gestos em vez das palavras. Ele acha importante seguirmos em frente: atravessar, para ele, é reverência. Eu choro as faltas. Ele segue para honrá-las.
Ele é meu pai, meu vínculo primevo e estrutural de amor. A presença que sustentou a ausência de minha mãe, que faleceu quando eu tinha 5 anos e ele, 35. A figura que me ensinou que amor se sente “e” se explica, se traduz.
Foi ele quem, tão jovem, nos ensinou a potência dos pequenos rituais que se repetem: o teatro, a tortinha de morango da Ofner, todo fim de semana. Para quem perdeu tudo de repente, repetir é ter chão e é doçura convivendo com a dor.
Ele me encontrava chorando vendo VHS da minha mãe e dizia “se você já tá triste, para que ver algo que te deixa mais triste? Você é muito melancólica“. E foi o mesmo homem que me apresentou a beleza da melancolia, enchendo a casa com o violino de “Cinema Paradiso“. Reprovava em palavras o que me oferecia em atos. Nenhum de nós dois sabia que aquilo já era tradução.
É interessante pensar que usamos a expressão “língua materna” para nomear o idioma que falamos naturalmente. Transposta para o afeto, ela promete carinho, delicadeza, palavras de conforto e um entendimento absoluto, que antecipa nossas necessidades sem que precisemos nomeá-las. A língua que buscamos a vida toda para voltar à ilusão de completude de quando bebês —antes de percebermos que havia outro, um estrangeiro, um pai que interditava a conexão e ainda falava outra língua. Qual seria essa língua paterna, que não é “natural” nem nos é ensinada?
Recebo na clínica muitos relatos de adultos que se sentem eternas crianças repreendidas por pais presentes na estrutura e nas regras, mas não no colo, na escuta, nas emoções. Talvez não exista tanta falta quanto dói sentir. Talvez falte tradução: ensinar a língua que se fala e aprender a do outro, que ainda pode ser colo.
Eu e meu pai nos transformamos ao aprender o “bilinguismo do afeto”. Traduzir meu amor por ele em palavras é minha forma de homenagear esse “pai herói” e de te convidar a revisitar o léxico que você e seu pai têm usado.
Repito “pai herói”, pois precisei traduzir a expressão para ele. Foi no jantar de segunda nosso ritual de comer frango assado na casa dele; eu sempre mais diálogo, ele sempre mais presença. Comentava os efeitos da ausência emocional paterna e dizia como era grata por ter um pai herói tão presente. Ao me ouvir, ele me repreendeu: “chega né, Carolina, você não é mais uma menina.” Me faltaram palavras.
À noite, liguei para que a gente pudesse se traduzir.
Disse que o chamo assim não porque acredite que ele é perfeito, mas porque honro sua garra, sua dedicação a mim e a meu irmão, suas idas de metrô com uma orquídea para me ver fazer teatro cult no centro do Rio. Porque sei como ele me deu colo quando perdi um sócio e amigo. Nas palavras, disse: “se este é o trabalho em que você acredita, vai ter que se reerguer e seguir sozinha.”
Eu só queria chorar no colo dele e ouvir algo que nomeasse o horror que eu mesma não conseguia traduzir. Isso não veio. Veio outra coisa: “já que estão arrumando a infiltração no seu apartamento, em vez de dormir aqui dois dias, fica duas semanas e não dorme com cheiro de tinta.” Eu entendi. Aceitei. Eu, aos 39 anos, puxei um colchão e dormi no chão do quarto dele, chorando. Ele estava lá.
Disse a ele que me conectar pelo afeto, pelo “eu te amo e te admiro”, não me faz uma menina: me faz uma mulher que vive a partir do amor.
O medo do pai herói era que a filha não crescesse. O da filha, que o pai não se orgulhasse da adulta que cresce no campo do sutil, das mudanças que vão aos poucos. Angustiado ao me ver angustiada, dizia: “quando você vai dar uma guinada na vida?”
Entendi que era torcida e não repreensão. Contei a ele que sou uma mulher do “devagar, devagar, de repente”. Nos entendemos. Nos traduzimos.
Aprendemos também a pedir. “Pai, tô precisando de colo.” “Filha, hoje não quero falar disso, podemos só ficar aqui… Me conta algo bom.” Ninguém ama naturalmente e sem tradução.
Mesmo apaixonada pelas palavras, aprendo com ele a potência do amor que é gesto. Amor que o fez atravessar São Paulo para levar coxinha da Ofner à minha tia no hospital, no último dia dela. Em silêncio, os dois comeram. Com palavras, eu me declarei a ela. Nós dois sempre estivemos lá.
Quando veio um diagnóstico difícil sobre minha avó, mãe dele, contive o impulso de dizer o que eu queria ouvir. Não trouxe palavras de conforto: trouxe um bolo de coco gelado, o favorito dele. O mesmo gesto doce da minha infância tornando a dor menos amarga.
Continuo sendo mais diálogo. Ele, mais presença. A diferença é que já não confundimos diferença com falta. O bilinguismo no amor me deu um senso de pertencimento que se dá na alteridade. Se hoje repito Erich Fromm “o amor é o que o amor faz” como mantra, é porque vivi esse amor-ação desde pequena.
Que neste Dia dos Pais você e seu pai possam se dar de presente a chance de aprender a língua um do outro.
Obrigada Carlos Tilkian por ser meu pai herói.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP

