A expansão dos carros elétricos no mercado brasileiro trouxe uma série de dúvidas para consumidores que avaliam comprar um modelo. Quanto custa, qual é a autonomia, se o veículo realmente é mais econômico, como funciona a reposição de peças e como fica a revenda são exemplos de dúvidas frequentes entre os consumidores.
Em julho, os veículos leves eletrificados alcançaram 21% de participação nas vendas de veículos novos no Brasil, o maior nível já registrado pelo segmento, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Foram 56.074 emplacamentos no mês, alta de 194,9% sobre julho de 2025. No acumulado de janeiro a julho, chegaram a 271.097 unidades, contra 223.896 em todo o ano de 2025.
Entre os modelos 100% elétricos, foram 25.782 emplacamentos em julho, alta de 268% em 12 meses.
Para entender melhor esse movimento, a Gazeta do Povo buscou respostas com base em dados do mercado, levantamentos e informações de especialistas. A análise considera desde o preço de compra e os custos de uso até as condições encontradas pelo proprietário depois de adquirir o veículo.
Quanto custa um carro elétrico?
O preço de um carro elétrico ainda varia bastante no Brasil, mas a entrada de novas marcas e, principalmente, a ofensiva dos fabricantes chineses ampliaram a oferta de modelos e criaram uma faixa de preços que há poucos anos praticamente não existia.
Hoje o consumidor encontra desde compactos voltados ao uso urbano até SUVs e modelos de maior porte, com diferenças significativas de autonomia, potência, tamanho da bateria e equipamentos.
Na faixa mais baixa, o JMEV Emova Easy passou a ser vendido por R$ 69.990 em junho de 2026 e se tornou o carro elétrico mais barato do país, segundo a revista Quatro Rodas. É um modelo pequeno, com 3,50 metros de comprimento, quatro lugares, bateria de 15,88 kWh e autonomia declarada de 201 quilômetros. O conjunto deixa claro o perfil do veículo: trata-se de um carro voltado principalmente para deslocamentos urbanos.
Abaixo de R$ 100 mil, há opções de entrada, mas com limitações de porte e desempenho. O Emova Urban, também da JMEV, custa R$ 99.990 e oferece autonomia de até 330 quilômetros.
À medida que se sobe de categoria, aparecem modelos como o BYD Dolphin, que chegou ao mercado brasileiro em uma faixa de preço próxima de R$ 150 mil, além de SUVs compactos e médios que ultrapassam os R$ 200 mil.
Há SUVs e sedãs elétricos de marcas premium que ultrapassam R$ 500 mil, enquanto modelos de luxo chegam à casa dos milhões. O Rolls-Royce Spectre, primeiro elétrico da marca britânica, foi oferecido no Brasil por cerca de R$ 7 milhões.
No extremo da faixa, o Lotus Evija, hipercarro elétrico de produção limitada, pode chegar a cerca de R$ 40 milhões em uma eventual negociação no mercado brasileiro, segundo a Quatro Rodas. O modelo tem 2.039 cv e produção limitada a 130 unidades no mundo. É, porém, um caso excepcional: não se trata de um veículo de produção em massa com preço de tabela comparável aos modelos convencionais disponíveis no mercado.
A variedade de modelos também aumentou de forma acelerada. A atualização do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), divulgada pelo Inmetro em 14 de agosto de 2026, reúne 959 modelos e versões de veículos leves, dos quais 185 são elétricos.
Esse movimento também alterou o preço médio do mercado. Segundo a Bright Consulting, o preço médio dos veículos leves caiu 1,5% em termos reais entre 2025 e junho de 2026, passando de R$ 172,5 mil para R$ 170 mil.
Um levantamento feito pela reportagem com base nas buscas no Google Trends mostra que o interesse dos brasileiros por carros elétricos deixou de se concentrar apenas na tecnologia e passou a envolver decisões práticas sobre compra e uso.
A busca por informações sobre preços ganhou força ao longo dos cinco anos analisados.
Entre os três termos comparados, “carro elétrico valor” atingiu o maior nível de interesse da série, com índice 100 em agosto de 2026. “Quanto custa carro elétrico” passou de 5 pontos em agosto de 2021 para 62 pontos em agosto de 2026, enquanto “carro elétrico preço” passou de 18 pontos em 2021 para 81 pontos em agosto deste ano.
Qual é a autonomia de um carro elétrico?
A autonomia declarada varia bastante entre os modelos vendidos no Brasil. A edição 2026 do PBEV, do Inmetro, reúne os dados de autonomia dos elétricos e permite comparar os veículos em uma mesma metodologia.
A tabela foi atualizada em 14 de agosto e é a referência oficial para os números de autonomia divulgados no mercado brasileiro.
Os números mostram a amplitude dessa diferença. Entre os elétricos avaliados pelo programa há modelos com autonomia na casa dos 200 quilômetros, enquanto outros ultrapassam 500 quilômetros com uma carga.
O PBEV também permite observar outro dado importante: autonomia e eficiência não são a mesma coisa.
O programa informa o consumo energético dos veículos em MJ/km e classifica sua eficiência de “A” a “E”. Um carro pode ter uma bateria maior e, consequentemente, maior alcance, mas isso não significa necessariamente que seja mais eficiente no uso da energia.
Na prática, a autonomia aferida em laboratório pode ser diferente daquela obtida no uso cotidiano.
A autonomia permanece entre as principais preocupações de quem considera a tecnologia. Buscas no Google Trends relacionadas à autonomia e à bateria também ganharam força nos últimos cinco anos, mas em ritmos diferentes.
“Bateria carro elétrico” passou de índices próximos de 8 pontos no início da série para cerca de 60 pontos em 2026, antes de alcançar 100 na semana de 26 de julho de 2026.
Já “autonomia carro elétrico” saiu de níveis próximos de 2 pontos em 2021 para cerca de 25 pontos em 2026.
A busca específica por “quantos km carro elétrico” permaneceu em patamar inferior, passando de índices próximos de zero no início da série para cerca de 9 pontos no período mais recente.
Na média dos cinco anos, o termo relacionado à bateria registra 26 pontos, contra 8 para “autonomia carro elétrico” e 3 para “quantos km carro elétrico”.

Carro elétrico é mais econômico que carro a combustão?
Na conta do abastecimento, sim. Uma simulação feita pela Gazeta do Povo mostrou que um carro elétrico pode custar até 76% menos por quilômetro do que um modelo movido exclusivamente a gasolina.
O cálculo considerou preços médios nacionais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), tarifa residencial média da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e dados de eficiência do PBEV do Inmetro.
Na simulação, um carro a gasolina com consumo médio de 10 quilômetros por litro gastaria cerca de R$ 662 para percorrer 1.000 quilômetros, considerando gasolina a R$ 6,62 por litro. Um elétrico com consumo de 15 kWh a cada 100 quilômetros precisaria de aproximadamente 150 kWh para percorrer a mesma distância. Com tarifa residencial média de R$ 1,03 por kWh, o custo seria de cerca de R$ 155.
Isso equivale a aproximadamente R$ 0,66 por quilômetro no modelo a gasolina e R$ 0,16 no elétrico. A economia, portanto, chega a cerca de 76% na simulação. O resultado pode mudar de acordo com o modelo, a tarifa de energia e o perfil de condução.
A comparação não significa que o elétrico necessariamente custará menos ao proprietário em todos os aspectos. A conta feita pela reportagem considera apenas a energia consumida e não inclui preço de aquisição, seguro, depreciação ou substituição da bateria.
A diferença de eficiência também ajuda a explicar o resultado. O motor elétrico aproveita uma parcela maior da energia para produzir movimento, enquanto os motores a combustão dissipam uma parte significativa da energia em forma de calor.
O interesse dos consumidores pelo custo de uso dos carros elétricos também aparece nas pesquisas do Google Trends.
Para identificar quais aspectos econômicos mais despertam a atenção de quem busca informações sobre esse tipo de veículo, a reportagem comparou quatro termos relacionados a consumo e economia nos últimos cinco anos.
“Carro elétrico consumo” apresentou o maior interesse médio, com 37 pontos, bem acima de “carro elétrico ou gasolina” (5 pontos), “carro elétrico econômico” (4) e “carro elétrico economia” (3).
Além de liderar a média do período, o termo relacionado ao consumo manteve uma trajetória de alta mais consistente e atingiu o índice máximo de 100 em junho de 2026. No mesmo período, “carro elétrico ou gasolina” chegou a 52 pontos, enquanto “carro elétrico econômico” alcançou 23 e “carro elétrico economia”, 21.

É fácil encontrar peças de reposição para carros elétricos?
Encontrar peças de reposição para carros elétricos ainda é um problema no Brasil. A dificuldade é maior para modelos de marcas recém-chegadas ao país e para componentes específicos do sistema elétrico, que muitas vezes têm pouca oferta no mercado independente ou dependem da importação.
O contraste aparece em um mercado de reposição de autopeças que já é grande e consolidado. Segundo o Sindipeças, esse segmento movimentou R$ 60,9 bilhões em 2025, o equivalente a 22,6% do faturamento da indústria brasileira de autopeças.
A expansão dos elétricos, porém, trouxe uma nova demanda para a cadeia, com componentes, fornecedores e tecnologias ainda pouco difundidos fora das redes autorizadas.
Essa dificuldade tende a ganhar importância com o crescimento da frota. Mais de 220 mil veículos eletrificados foram vendidos no Brasil em 2025, mas eles ainda representavam cerca de 0,6% da frota circulante. O mercado independente ainda atende uma parcela pequena desses veículos, justamente enquanto precisa se preparar para uma frota que cresce rapidamente.
Na ponta desse mercado, as dificuldades já aparecem no dia a dia das oficinas. Mario Felipe Rodrigues Bandeira, proprietário da E-Scuderia Car Service, oficina especializada em veículos híbridos e elétricos em São Paulo, afirmou à reportagem que encontrar peças é um dos principais desafios da reparação desses veículos.
“Hoje a gente tem uma grande dificuldade de encontrar peças simples no mercado. Por exemplo, eu estou com um Fiat 500e 100% elétrico 2023, que simplesmente não tem a pastilha traseira do carro no Brasil”, afirmou.
A situação fica ainda mais complicada quando se trata de componentes do sistema de alta tensão. “Se a gente for citar sobre peças mais complexas ainda, são peças voltadas ao sistema de gestão HV (High Voltage). Por exemplo, para você comprar hoje um inversor, um módulo OBC (On-Board Charger ou carregador de bordo) , todos esses componentes são de extrema dificuldade”, disse.
Bandeira também citou o caso de um Tesla para mostrar como a falta de peças pode prolongar o reparo. Segundo ele, a oficina aguardava há 30 dias a chegada de eletroventiladores com o defletor vindos dos Estados Unidos. “Essa peça está em falta na própria fábrica da Tesla, que provavelmente vem da China”, relatou.
A dificuldade também atinge modelos de marcas que chegaram recentemente ao mercado brasileiro. Bandeira citou Jaecoo, Omoda e Denza como exemplos de fabricantes cujos veículos ainda enfrentam problemas de disponibilidade de peças. “Tem muito carro aí que eu tenho certeza que foi lançado e não tem peça na concessionária”, afirmou.
Os prazos de entrega variam conforme a marca e a peça. Segundo Bandeira, algumas montadoras levam cerca de 15 dias, enquanto outras chegam a 20 ou 30 dias.
Ele diz que a situação é melhor para modelos da Toyota, que estão há mais tempo no mercado brasileiro.
De acordo com um estudo da McKinsey, o mercado brasileiro de reposição de autopeças deve quase dobrar de tamanho até 2040, passando de R$ 43 bilhões em 2024 para R$ 79 bilhões.
Hoje, segundo o estudo, cerca de 70% das peças comercializadas no Brasil são produzidas no país e 30% são importadas. Entre as importações, a China responde por 18,5%, os Estados Unidos por 10,7% e a Alemanha por 9%. A consultoria também aponta que 60% dos itens importados já são componentes mais complexos, incluindo peças relacionadas à motorização.
As dúvidas sobre manutenção e reparos também ganharam espaço nas buscas dos brasileiros. Uma comparação no Google Trends dos termos “manutenção carro elétrico”, “peças carro elétrico”, “conserto carro elétrico” e “oficina carro elétrico”, nos últimos cinco anos, mostra que a manutenção é um dos assuntos que mais desperta interesse.
O termo “manutenção carro elétrico” registrou média de 21 pontos no período, quase o dobro de “peças carro elétrico” (11 pontos). Na sequência aparecem “conserto carro elétrico” (7) e “oficina carro elétrico” (3).
Nos primeiros anos da série, entre 2021 e 2023, os quatro termos apresentaram picos isolados, sem uma tendência clara de alta. “Oficina carro elétrico” chegou a cerca de 58 pontos no início de 2022, enquanto “peças carro elétrico” alcançou aproximadamente 40 pontos em alguns momentos daquele ano. Esses picos, porém, não se mantiveram nos meses seguintes.
O comportamento muda a partir de 2024. As buscas por “manutenção carro elétrico” passam a registrar picos recorrentes na faixa de 30 pontos, enquanto “conserto carro elétrico” chega perto de 40 pontos no início de 2024 e novamente em meados de 2025. A partir daí, as pesquisas relacionadas ao pós-venda passam a aparecer com maior regularidade.
O movimento se intensifica em 2026. “Manutenção carro elétrico” atingiu o índice máximo de 100 pontos no início do ano, maior nível registrado na série de cinco anos. No mesmo período, “peças carro elétrico” chegou a aproximadamente 65 pontos, também o maior resultado do termo e muito acima de sua média histórica de 11 pontos. As buscas por “conserto carro elétrico” e “oficina carro elétrico” também registraram picos próximos de 30 pontos em 2026.

Carro elétrico perde muito valor na revenda?
A desvalorização é uma das principais dúvidas de quem compra um carro elétrico. Um estudo do IBV Auto, índice do banco BV, mostra que a preocupação não é infundada: os elétricos lançados em 2022 acumulavam, até maio de 2026, perda média de 49,3% do valor, contra 13,4% dos modelos a combustão equivalentes.
Mas esse resultado não vale para todos os elétricos. Um levantamento da Gazeta do Povo mostrou como a desvalorização varia entre os modelos.
A análise comparou o preço de lançamento de cada veículo com o valor registrado na Tabela FIPE em julho de 2026, calculando quanto cada modelo havia perdido desde que chegou ao mercado.
Entre os modelos analisados, o BYD Dolphin Mini, lançado em 2024, havia perdido 15,4% do valor de lançamento. O BYD Dolphin, lançado em 2023, apresentou desvalorização entre 13,3% e 26%, dependendo da versão. Já o Volvo EX30 Core, também lançado em 2024, acumulava perda de 22,2%.
Modelo, versão, ano de lançamento e preço inicial fazem diferença. O levantamento mostra, portanto, uma realidade mais heterogênea do que a média de 49,3% apontada pelo IBV Auto.
A liquidez dos elétricos usados – a facilidade de vendê-los – também merece atenção. Em janeiro de 2026, os modelos 100% elétricos registraram Market Day Supply (MDS) de 47 dias, abaixo dos 53 dias dos carros flex e dos 54 dias dos híbridos plenos.
O indicador relaciona o estoque disponível ao ritmo de vendas: quanto menor o MDS, mais rapidamente os veículos tendem a ser comercializados.
O aumento do interesse pelo mercado de elétricos usados também aparece nas pesquisas da internet. No Google Trends, os termos “carro elétrico usado venda” e “revenda carro elétrico” tiveram média de 5 pontos nos últimos cinco anos no Brasil.
“Comprar carro elétrico usado” registrou média de 3 pontos, enquanto “desvalorização carro elétrico” ficou em 0 ponto.
Apesar das médias baixas, a evolução recente chama atenção. “Carro elétrico usado venda” chegou a 58 pontos no início de 2025 e a 66 pontos no decorrer do ano. No início de 2026, o termo voltou a atingir cerca de 62 pontos.
O interesse aumentou ainda mais nos meses seguintes. “Revenda carro elétrico” chegou a 78 pontos em meados de 2026, enquanto “comprar carro elétrico usado” atingiu 100 pontos, o maior nível registrado para o termo na série de cinco anos.

** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.
Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br
