Dolly Parton inspira reflexão sobre amor e despedida – 26/08/2026 – Amor Crônico

Mulher loira com cabelo volumoso segura microfone branco e sorri no palco com fundo escuro e luzes desfocadas.

Morreu nesta terça (25) Dolly Parton, cantora e autora de uma das músicas mais cantadas do mundo para darmos voz a tudo que fica em nós quando um grande amor acaba: “I Will Always Love You”. Composta em 1973, ganhou o mundo em 92 na voz de Whitney Houston em “O Guarda-Costas” com camadas e camadas de sofrimento, profundidade e impossibilidade de reparação diante de uma despedida.

A maioria de nós canta “I Will Always Love You” como Whitney: associamos o amor que ficará para sempre ao sofrimento e à falta irreparável que marcarão nossa existência dali para frente. Medimos o tamanho do amor pelo alcance de seu dilaceramento e nos tornamos fiéis à dor da ausência justamente para justificar a importância daquela presença.

“Para que rimar amor e dor?”, pergunta Caetano Veloso. Rimar amor e dor é a forma que aprendemos a dar corpo a um sentimento tão potente quanto fragilizante. São feridas das quais insistimos em tirar a casquinha um momentinho antes que algo cicatrize. Voltamos em fotos, trilhas sonoras, memórias, indícios de que sempre amaremos aquela pessoa. Marcar a ausência é fazer do ausente presente. A saudade nos faz companhia.

Há aí um mecanismo masoquista e melancólico: cavucamos nossas próprias feridas para provar a nós mesmos que temos sentimentos profundos. Dilacerados, nos sentimos estranhamente fortes por carregar aquelas dores como prova de que o amor existiu e de que somos capazes de amar —capacidade que, daqui para frente, seguirá prejudicada, assim como nós. É exatamente assim que se perpetua o amor que a gente não quer abandonar.

Nessa lógica, não só adiamos o trabalho do luto, mantendo-nos ressentidos e fixados nas partes nossas que se quebraram, como quebramos qualquer possibilidade de afeto positivo em relação a quem partiu.

Machucados, reescrevemos a história inteira para justificar a saída. “Me enganei esse tempo todo.” “Ele nunca foi quem eu pensava.”

Como não sabemos sair amando, saímos destruindo e destruídos, transformando o outro em erro e nos condenando a uma vida errante.

Refletindo sobre mortes de pessoas importantes da minha vida, vejo como é angustiante nos darmos conta de que esquecemos. Do dia do aniversário, da voz. Esquecemos de ser sempre tristes para honrar aquele amor e rimos pela primeira vez em um natal. Dá essa sensação de estar traindo o outro. Outro esse que cantamos prometendo que amaríamos para sempre.

Mas e se, em vez de cantar como Whitney, pudéssemos cantar como Dolly? A música eternizada para falar da irreversibilidade de um coração partido foi escrita como uma carta de despedida que honrava o amor entre sócios. Em 1973, Dolly traduziu em canção o que não conseguia colocar em palavras —quantos de nós ficamos sem vocabulário e sem chão no momento do adeus? Depois de sete anos dividindo palco, plateia e sociedade com Porter Wagoner, o homem que a apresentou ao mundo, ela sentiu que era hora de seguir sozinha. Entrou na sala dele e cantou a declaração de amor e de despedida. Os dois choraram. Ela seguiu.

Seguiu sem sócio, mas voltou para casa, onde outro amor a esperava: Carl Dean, com quem já estava casada havia sete anos e com quem ficaria mais 52, até ele morrer, em 2025. A maior canção de perda amorosa do século foi escrita de dentro de um amor absolutamente inteiro —e ritualizado no privado. Em quase 60 anos, Carl praticamente não posou para fotos e assistiu a um único show dela. No infinito particular dos dois havia símbolos e ritos compondo um dialeto amoroso próprio, que não precisava ser cantado aos quatro ventos para existir.

Quais são as histórias de amor que a gente narra e quais a gente vive? Nesse contraste, Whitney nos ensinou a reconhecer amor no agudo, no acorde que arrebenta. Mas a rotina compartilhada é linha de baixo: ninguém sai cantando na rua, e é ela que sustenta a música inteira. O que os dois viveram por quase 60 anos não tinha refrão —tinha repetição, olhares, ritos, uma melodia que só eles sabiam cantar. A gente não sabe escutar amor em volume baixo. Fica esperando o rompante de dor para ter certeza de que era amor.

Três dias depois da morte de Carl, ela lançou “If You Hadn’t Been There”, escrita para ele. Quase 60 anos sem traduzir esse amor em canção e uma canção no terceiro dia. As duas grandes canções de amor da vida de Dolly são despedidas: uma para quem ela deixou, outra para quem a deixou. As duas músicas são formas de honrar o amor e não de desaguar a dor.

Pensar em “I Will Always Love You” como uma despedida que honra a história vivida e se compromete a levá-la consigo —não através da dor, mas das memórias, das conquistas compartilhadas, da pessoa maior, melhor e mais capaz de amar e ser amada depois deste encontro de almas é uma forma linda de nos convidarmos a lidar com os fins.

Podemos ressignificar nossas despedidas e também as permanências daqueles que nos atravessaram amorosamente. Ao invés de os tratarmos como feridas, podemos olhar cada um deles como marcas que nos constituem. Como tijolos que compõem essa casa que segue se expandindo.

O outro pode seguir conosco no jeito como aprendemos a passar o café, no ganho da confiança em se arriscar ao novo uma vez que tínhamos alguém verbalizando que acreditava em nós, na delicadeza que alguém te ensinou e que você usa hoje com outra pessoa.

Dolly nos ensina que dá para ir embora sem parar de amar e que amar alguém para sempre não é uma sentença de sofrer para sempre. Somos feitos de nossos amores. Os cantados e os privados.



Fonte ==> Folha SP

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