Tarifaço dos EUA exige negociação, estratégia e defesa do interesse brasileiro, afirma Rubens Barbosa

Rubens Barbosa em entrevista ao Foco América sobre tarifas dos Estados Unidos, consequências para o Brasil e alternativas comerciais.
O embaixador Rubens Barbosa analisa, em entrevista a Lineu Vitale no canal Foco América, os impactos das tarifas dos Estados Unidos e defende negociação e estratégia para proteger os interesses brasileiros.

Em entrevista a Lineu Vitale do Foco América, ex-embaixador em Washington e Londres analisa o avanço do protecionismo americano, rejeita a retaliação e aponta a negociação como prioridade para o Brasil.

O avanço das políticas protecionistas dos Estados Unidos não deve ser tratado pelo Brasil como um episódio passageiro. Em entrevista a Lineu Vitale do Foco América, o embaixador Rubens Barbosa analisou os efeitos das tarifas sobre produtos brasileiros e defendeu que o país responda ao novo cenário internacional com estratégia, negociação e uma política clara de defesa dos interesses nacionais.

Diplomata de carreira, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres e um dos nomes de referência no debate sobre relações internacionais e comércio exterior, Barbosa avalia que a resposta brasileira não deveria passar pela retaliação, mas pela construção de um canal efetivo de negociação com os Estados Unidos.

“A prioridade é negociar”, afirmou.

A análise apresentada durante a conversa com Lineu Vitale vai além da discussão sobre tarifas. Barbosa descreve uma transformação estrutural do comércio internacional, na qual protecionismo, disputa tecnológica, interesses nacionais e rearranjo das cadeias produtivas passam a ocupar espaço cada vez maior nas decisões dos governos.

Tarifas misturam comércio e política

Questionado por Lineu Vitale sobre a existência de uma justificativa plausível para que os Estados Unidos imponham tarifas elevadas sobre produtos brasileiros, Barbosa foi direto:

“Do ponto de vista das regras internacionais, não há a menor justificativa.”

Segundo o embaixador, embora existam produtos americanos submetidos a tarifas brasileiras mais elevadas, grande parte das exportações dos Estados Unidos entra no mercado brasileiro com tarifas relativamente baixas.

Barbosa também argumenta que o Brasil não se enquadraria naturalmente em algumas das justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para sustentar sua nova política tarifária, como redução do déficit comercial, proteção da indústria americana e estímulo ao investimento dentro do país.

Na avaliação do diplomata, o componente comercial acabou misturado a questões políticas da relação bilateral.

Barbosa classifica a decisão norte-americana como unilateral e protecionista e observa que diversas exceções tarifárias foram concedidas não necessariamente como resultado de negociações com o Brasil, mas também em razão dos interesses de empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos.

Retaliação pode ampliar o problema

Diante desse cenário, surge a pergunta inevitável: como o Brasil deveria reagir?

Para Barbosa, a retaliação não interessa ao país. Uma resposta comercial direta poderia provocar contra-retaliações americanas e ampliar um conflito que já afeta empresas brasileiras e economias regionais. Mas simplesmente não fazer nada também teria consequências.

“Tem muitas empresas que estão sendo muito prejudicadas, alguns Estados aqui no Brasil estão sendo muito afetados também, sobretudo os Estados mais pobres do Nordeste”, afirmou.

O caminho defendido pelo ex-embaixador passa pela construção de uma estratégia conjunta entre governo e setor privado, seguida de uma negociação oficial com Washington.

“Não tem saída. Todos os países negociaram. Nenhum país retaliou os Estados Unidos. Temos que negociar.”

Para Barbosa, portanto, não existem três prioridades distintas para enfrentar o problema. Existe uma prioridade central: negociação.

Brasil precisa de uma estratégia comercial

A negociação com Washington, porém, é apenas uma parte do problema.

Barbosa também chama atenção para a necessidade de o Brasil desenvolver uma política de comércio exterior mais consistente, ampliar acordos comerciais e enfrentar seus próprios gargalos de competitividade.

Isso não significa, segundo ele, promover uma abertura indiscriminada da economia brasileira.

Setores como máquinas, equipamentos, petroquímica e indústria farmacêutica exigem atenção diante de uma abertura unilateral capaz de comprometer a produção nacional.

A questão central é encontrar equilíbrio entre maior integração comercial e defesa dos interesses econômicos do país.

Nesse ponto, Barbosa faz uma comparação direta com a postura norte-americana:

“Os Estados Unidos estão defendendo o interesse nacional das empresas americanas. O Brasil devia fazer a mesma coisa.”

Protecionismo americano deve permanecer

Para quem espera que uma mudança política nos Estados Unidos seja suficiente para devolver o comércio internacional ao cenário anterior, Barbosa demonstra ceticismo.

O ex-embaixador lembra que medidas protecionistas adotadas durante o primeiro governo Donald Trump contra a China foram posteriormente mantidas e ampliadas durante a administração de Joe Biden.

A leitura é que existe uma mudança mais profunda na política comercial norte-americana.

Governos podem mudar. A defesa mais agressiva dos interesses econômicos dos Estados Unidos tende a permanecer.

Isso significa que países como o Brasil terão de aprender a negociar dentro de um ambiente internacional menos previsível e mais orientado pelos interesses nacionais das grandes potências.

OMC perdeu capacidade de arbitragem

Outro ponto levantado por Lineu Vitale foi o papel da Organização Mundial do Comércio diante do avanço de medidas unilaterais.

Barbosa não demonstra expectativa de que a instituição consiga resolver o problema.

Segundo ele, a OMC está esvaziada, especialmente diante da paralisação de seu sistema de apelação e da postura dos Estados Unidos em relação à jurisdição do organismo.

O recurso brasileiro à organização teria, portanto, importância política e diplomática, mas capacidade prática limitada para reverter as medidas protecionistas.

Esse enfraquecimento das instituições multilaterais muda a lógica das relações comerciais.

Quando as estruturas criadas para arbitrar conflitos perdem força, a capacidade de negociação direta entre países ganha ainda mais importância.

A globalização não acabou

Apesar do avanço do protecionismo, Barbosa rejeita uma conclusão recorrente: a de que a globalização teria chegado ao fim.

“A globalização está sendo ajustada, ela não acabou.”

Segundo ele, o comércio internacional continua crescendo, embora em ritmo menor. Cadeias produtivas permanecem integradas, países asiáticos continuam negociando acordos e a União Europeia segue ampliando suas relações comerciais.

O que está acontecendo é uma transformação das regras.

“A ordem anterior está totalmente superada, na minha visão, e vai haver uma nova ordem com áreas de influência, com novas regras.”

Para Barbosa, Estados Unidos e China terão influência decisiva na construção dessa nova configuração global.

Crescimento da Ásia traz oportunidade — e dependência

A diversificação das exportações brasileiras aparece na entrevista como oportunidade, mas também como sinal de alerta.

Barbosa destaca o crescimento da importância da Ásia para o comércio exterior brasileiro, especialmente da China, enquanto a participação dos Estados Unidos perde espaço.

A expansão dos mercados asiáticos é positiva para setores exportadores, particularmente aqueles ligados à produção agrícola e de alimentos.

O risco está na concentração.

Uma dependência comercial cada vez maior da Ásia, acompanhada pela redução das relações econômicas com os Estados Unidos, pode limitar outras oportunidades importantes para o Brasil.

Barbosa chama atenção especialmente para o acesso a tecnologia e equipamentos modernos.

Diversificar mercados, portanto, não significa apenas substituir um parceiro comercial por outro. Significa construir relações suficientemente amplas para evitar novas dependências.

Empresas americanas podem ajudar a destravar tarifas

Um dos aspectos mais relevantes da entrevista é o papel desempenhado pelas próprias empresas norte-americanas.

Segundo Barbosa, parte das reduções ou exceções tarifárias concedidas pelos Estados Unidos ocorreu em razão da pressão de empresários americanos.

Há uma razão econômica simples.

Uma parcela relevante do comércio bilateral envolve subsidiárias de companhias americanas instaladas no Brasil que exportam para suas próprias matrizes ou para empresas relacionadas nos Estados Unidos.

Em outros casos, tarifas sobre produtos brasileiros acabam aumentando diretamente o preço pago pelo consumidor americano.

Barbosa cita produtos como café e suco de laranja como exemplos de setores nos quais interesses empresariais internos dos Estados Unidos ajudaram a pressionar por mudanças.

Isso abre uma frente importante para qualquer estratégia brasileira: negociar não apenas de governo para governo, mas compreender os interesses econômicos existentes dentro do próprio mercado americano.

Big Techs podem abrir uma nova frente de conflito

A relação entre Brasil e Estados Unidos também ultrapassa o comércio de mercadorias.

Questionado por Lineu Vitale sobre serviços, plataformas digitais, meios de pagamento e o debate envolvendo o PIX, Barbosa relativizou a importância deste último ponto.

Para ele, uma questão potencialmente mais sensível está na regulamentação das Big Techs no Brasil.

Temas relacionados às plataformas digitais, tributação e liberdade de expressão podem ganhar peso e criar novos pontos de tensão na relação bilateral.

O alerta é relevante porque mostra que a próxima disputa comercial pode não estar apenas em contêineres, commodities ou produtos industriais.

Pode estar também nos serviços e na economia digital.

Antes de disputar o mundo, Brasil precisa arrumar a própria casa

A parte mais dura da análise de Rubens Barbosa, entretanto, não está em Washington.

Está no Brasil.

Questionado sobre o que o empresário brasileiro deveria fazer para competir nesse novo ambiente internacional, o embaixador apontou três condições fundamentais: estabilidade política, estabilidade econômica e segurança jurídica.

Barbosa também menciona controle dos gastos, redução do déficit fiscal, reformas e construção de uma visão econômica de médio e longo prazo.

Na prática, seu argumento é que nenhuma política de comércio exterior será suficiente se as empresas brasileiras continuarem enfrentando internamente condições que reduzem sua competitividade.

O nível dos juros aparece como um dos exemplos.

Barbosa também chama atenção para empresas que estão transferindo operações para o Paraguai em busca de custos menores, mantendo posteriormente acesso ao mercado brasileiro.

É um movimento que, para o diplomata, deveria servir de alerta.

Tecnologia e inteligência artificial entram na disputa

A discussão comercial também está diretamente conectada à capacidade tecnológica do país.

Barbosa coloca o avanço tecnológico e a inteligência artificial entre os interesses estratégicos que o Brasil precisa defender.

Não se trata apenas de exportar mais.

A nova disputa internacional envolve capacidade produtiva, tecnologia, investimentos, inovação e acesso às cadeias mais sofisticadas da economia global.

Sem estabilidade interna e reformas capazes de melhorar o ambiente econômico, o Brasil corre o risco, segundo o embaixador, de estagnar e retroceder tecnologicamente.

“Estamos chegando à hora da verdade”

Ao final da entrevista, Rubens Barbosa reconhece as dificuldades políticas para a implementação dessas mudanças.

Polarização, falta de liderança, insegurança jurídica e ausência de consensos dificultam reformas estruturais.

Ainda assim, o diplomata vê a pressão da própria realidade econômica como possível catalisadora de mudanças.

“A gente está se aproximando de uma hora da verdade.”

Nesse processo, Barbosa defende uma participação mais ativa do setor privado na formulação e defesa dos interesses econômicos brasileiros.

O cenário internacional mudou. Estados Unidos e China disputam influência, antigas estruturas multilaterais perderam força e o protecionismo voltou ao centro da política econômica.

Para o Brasil, a escolha não está entre participar ou não dessa transformação.

Ela já está acontecendo.

A questão é se o país entrará nessa nova ordem com estratégia própria — ou continuará reagindo às estratégias definidas pelos outros.

Confira a entrevista completa de Rubens Barbosa a Lineu Vitale, no canal Foco América: https://www.focoamerica.com/blog-2/tarifas-motivaes-consequncias-e-alternativas

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