Wollying: o custo neurobiológico da violência entre mulheres

Myrinha Vasconcellos ao lado do livro Quais de Mim Você Procura?, obra que aborda o WOLLYING e seus impactos emocionais e sociais.
Myrinha Vasconcellos e o livro "Mulheres no Combate ao WOLLYING": uma reflexão sobre o WOLLYING e os efeitos silenciosos da violência emocional entre mulheres.

Quando a violência deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a reorganizar o funcionamento cerebral.

Segunda Camada: o Olhar da neurociência

A ciência contemporânea produziu uma das descobertas mais desconfortáveis do nosso tempo: o cérebro humano não distingue com tanta clareza quanto imaginávamos a ameaça física da ameaça emocional persistente.

Quando uma mulher é submetida continuamente a processos de humilhação, exclusão, desqualificação, intimidação psicológica ou destruição sistemática de sua identidade por outra mulher — fenômeno que denominamos WOLLYING — não estamos apenas diante de sofrimento subjetivo. Estamos diante de um evento potencialmente neurobiológico.

Durante décadas acreditou-se que experiências emocionais pertenciam ao campo abstrato dos sentimentos enquanto o cérebro ocupava o território concreto da matéria. A Neurociência demonstrou algo diferente: experiências repetidas remodelam circuitos neurais. Emoções alteram química cerebral. Relacionamentos influenciam o funcionamento do cérebro. Isso não significa afirmar que toda mulher submetida ao WOLLYING sofrerá alterações permanentes.

Mas significa reconhecer algo que já não pode ser ignorado: o sofrimento psicológico prolongado produz respostas biológicas mensuráveis.

Do ponto de vista neurocientífico, uma experiência isolada de constrangimento não produz, necessariamente, alterações relevantes no funcionamento cerebral. Entretanto, a exposição repetida, imprevisível e prolongada à ameaça social pode ativar mecanismos adaptativos que, mantidos por tempo excessivo, deixam de proteger e passam a gerar desgaste.

Quando o cérebro interpreta o ambiente relacional como biologicamente inseguro, ocorre ativação recorrente do chamado eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA) — um dos principais sistemas de resposta ao estresse.

Em situação de ameaça, o organismo libera cortisol para aumentar vigilância e capacidade de reação. Em curto prazo, esse mecanismo protege. Porém, quando ativado continuamente, pode contribuir para um estado persistente de alerta.

O neurocientista Bruce McEwen, referência mundial nos estudos sobre estresse e cérebro, formulou o conceito de carga alostática para descrever o custo biológico acumulado de permanecer adaptando-se continuamente a situações de tensão.

Sua contribuição transformou a compreensão contemporânea sobre saúde mental ao demonstrar que o cérebro não apenas responde ao estresse — ele também é moldado por ele.

A literatura científica tem associado exposição prolongada ao estresse a alterações funcionais em regiões cerebrais importantes:

  • Hipocampo — relacionado à memória e contextualização das experiências;
  • Amígdala cerebral — envolvida na detecção de ameaças e respostas emocionais;
  • Córtex pré-frontal — associado ao planejamento, autocontrole e regulação emocional.

Na vida cotidiana, tais alterações não se apresentam necessariamente como doença identificável. Podem surgir como dificuldade de concentração, fadiga mental persistente, hipervigilância social, insegurança contínua, esgotamento emocional ou sensação de perda da própria referência interna.

Importa esclarecer que esta segunda camada não retoma a análise psicológica já desenvolvida anteriormente.

O propósito aqui é outro: observar como a Neurociência contemporânea tem compreendido os efeitos da exposição prolongada ao estresse relacional e como determinados achados dialogam com observações clínicas descritas pela Psiquiatria — não para substituir o olhar psicológico, mas para ampliar a compreensão sobre possíveis repercussões biológicas e funcionais associadas ao sofrimento emocional persistente.

Embora o WOLLYING não corresponda, até o momento, a uma categoria diagnóstica específica em psiquiatria, os fenômenos subjacentes à violência emocional persistente já são amplamente estudados sob diferentes perspectivas clínicas e neurocientíficas.

O psiquiatra Bessel van der Kolk, estudioso internacionalmente reconhecido no campo do trauma psicológico, propõe uma reflexão importante ao afirmar que o trauma não se define apenas pelo acontecimento vivido, mas pela forma como a experiência continua sendo registrada e reativada ao longo do tempo.

Essa compreensão possui uma consequência importante para o debate social e jurídico:

nem toda violência deixa sequelas permanentes.

Contudo, o fato de uma consequência não ser inevitável não reduz a necessidade de reconhecer que determinadas formas de violência emocional podem produzir efeitos duradouros em parte das vítimas.

Na prática clínica, recuperar-se nem sempre significa apagar o ocorrido. Frequentemente significa reconstruir sensação de segurança, recuperar autonomia emocional e permitir que a experiência deixe de organizar silenciosamente a vida cotidiana.

Nesta segunda camada, não buscamos demonstrar que toda experiência de violência emocional produz adoecimento, tampouco antecipar conclusões científicas ou jurídicas.

O que se propõe aqui é algo diferente: formular uma reflexão.

Se a Neurociência demonstra que experiências repetidas participam da modulação dos circuitos relacionados ao estresse, à memória e à regulação emocional; e se a Psiquiatria observa que certos sofrimentos permanecem ativos muito depois do término dos acontecimentos — então talvez valha perguntar:

seria suficiente continuarmos tratando determinadas formas de violência relacional apenas como desconfortos passageiros ou conflitos interpessoais comuns?

Talvez o desafio do nosso tempo não seja ampliar conceitos de violência. Talvez seja ampliar nossa capacidade de reconhecer onde ela já existe. Porque nem todo dano chega fazendo barulho. Alguns chegam em silêncio. Instalam-se lentamente. Alteram escolhas. Mudam relações. Reorganizam a forma como uma pessoa se percebe no mundo.

E quando finalmente se tornam perceptíveis, em alguns casos os processos que lhes deram origem já vinham se desenvolvendo silenciosamente há muito tempo.

Este artigo não pretende encerrar o debate. Se ao final desta leitura alguém sair com mais perguntas do que respostas, talvez tenhamos cumprido exatamente o nosso propósito. Porque grandes transformações jurídicas raramente começam com certezas.

Elas costumam começar quando alguém tem coragem intelectual suficiente para perguntar:

será que existe algo aqui que ainda não aprendemos a enxergar?

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