Republicanos estão cometendo o mesmo erro dos democratas – 30/08/2026 – Ezra Klein

Tela de smartphone mostra ícones de aplicativos de redes sociais como Instagram, Facebook, LinkedIn, Maps, Reddit, Telegram, X, Bluesky, TikTok e WhatsApp em fundo escuro.

Tenho visto alguns argumentos sobre por que qualquer pessoa que esteja minimamente à esquerda deveria abandonar o X, de Elon Musk. Ned Resnikoff, autor do manifesto YIMBY “Build or Die”, apresenta uma versão desse argumento.

Musk, escreve ele, está “deliberadamente construindo um ambiente imersivo no qual o extremismo de direita não está apenas presente, mas é onipresente”. Continuar publicando em sua plataforma de mídia social —mesmo a partir da esquerda, mesmo como crítico de Musk— significa atrair olhares e energia para uma plataforma que, em última instância, Musk controla e usa como bem entende.

É evidentemente verdade que Musk transformou o X em um instrumento para direcionar a atenção do mundo para suas posições políticas pessoais. Em junho, por exemplo, Musk se encantou por “Citizen Vigilante”, filme em que um viajante americano na Europa, interpretado por Armie Hammer, inicia uma matança contra imigrantes muçulmanos e autoridades governamentais progressistas que os tratam com condescendência. Ele disponibilizou o filme gratuitamente em sua conta por 48 horas e o impulsionou ao topo de vários rankings de streaming e ao centro do debate cultural.

Isso ocorreu pouco depois de Musk promover os protestos anti-imigração em Belfast (“Keir Starmer claramente odeia pessoas brancas”, dizia uma das mensagens que ele amplificou), que, por sua vez, ocorreram em meio à contínua promoção que Musk faz do partido alemão de extrema direita AfD (“Só a AfD pode salvar a Alemanha”) e aos vultosos gastos dele em apoio ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano. Também sabemos que Musk restringiu o alcance de links para publicações das quais não gosta e, em determinado momento, acrescentou à NPR o rótulo de “mídia afiliada ao Estado”.

Até que ponto as opiniões de Musk estão incorporadas ao funcionamento do algoritmo do X? Um estudo liderado por Germain Gauthier, da Universidade Bocconi, na Itália, reuniu quase 5.000 usuários do X nos Estados Unidos e os designou para acompanhar, durante sete semanas, o feed algorítmico ou cronológico da plataforma. Os usuários designados para o feed algorítmico viram mais conteúdo de direita e se deslocaram para a direita em suas próprias posições políticas.

Esse estudo foi realizado em 2023. Desde então, Musk integrou o algoritmo do X à sua inteligência artificial Grok e publicou grande parte do código do algoritmo. Há divergências sobre se isso representa transparência suficiente para inspirar confiança. Para mim, não representa. Sabemos que o Grok foi repetidamente direcionado para posições de direita, inclusive durante um período em que a IA respondia a perguntas inofensivas com discursos inflamados sobre “genocídio branco”. Musk tem direito a suas posições políticas, mas é ingênuo fingir que o X, sob sua propriedade, tenha sido ou venha a ser uma plataforma neutra. Ele pode mudar o sistema como quiser, quando quiser —e fará isso.

Mas o problema do X não começou com Musk. Compreender isso leva a uma conclusão talvez contraintuitiva: embora o domínio de Musk sobre o X represente um perigo para a esquerda, ele é, no mínimo, igualmente perigoso para a direita. O X, como o anel em “O Senhor dos Anéis”, corrompe quem quer que o controle. Possuí-lo dá a sensação de poder, mas, no fim das contas, deforma e isola seu dono.

É verdade que o Twitter permite que novas ideias atravessem a sociedade a uma velocidade que jamais teria sido possível antes. Mas ele transforma essas ideias dentro de uma estufa ideológica, na qual pensamentos complexos são reduzidos a slogans, a moeda corrente são os aplausos de seus correligionários e a atenção é determinada pelo conflito.

A preferência algorítmica da plataforma por ideias novas e controversas podia elevar temporariamente vozes que antes não eram ouvidas, mas ela não tinha preferência pelos marginalizados nem compromisso com a justiça. O Twitter tinha —e o X tem— tanto prazer em servir de estilingue para a teoria da grande substituição, o antissemitismo ou a islamofobia quanto para os apelos pelo corte de verbas da polícia ou pela extinção do ICE. Ele favorece ideias e vozes que resistem à simplificação, provocam controvérsia e empolgam correligionários. Descarta ideias e vozes que exigem nuance ou procuram equilibrar valores e posições concorrentes.

Na eleição de 2024, a vice-presidente Kamala Harris foi duramente atacada por posições que não tinham precedente em sua carreira como promotora “eficiente no combate ao crime” em San Francisco.

A atual leva de candidatos socialistas democráticos se vê obrigada a tentar explicar tuítes do passado que colocam em risco suas perspectivas no presente. Zohran Mamdani passou parte de sua campanha à prefeitura pedindo desculpas por frases como: “Não precisamos de uma investigação para saber que o Departamento de Polícia de Nova York é racista, anti-LGBTQIA+ e uma grande ameaça à segurança pública”. Alexandria Ocasio-Cortez terá de lidar com esta: “Cortar o financiamento da polícia significa cortar o financiamento da polícia. Não significa truques orçamentários nem malabarismos matemáticos”.

Musk assumiu o controle do Twitter em 2022. Mas o dano que o Twitter causou aos democratas em 2024, e que continua causando até hoje, não veio do período de Musk à frente da plataforma; veio do que eles disseram quando a política da plataforma era mais democrata e confundiam retuítes com poder de persuasão.

Em seu livro “Opinião Pública”, de 1922, Walter Lippmann argumenta que o problema central da democracia é que a imagem do mundo que temos na cabeça difere, de maneiras infinitas e imprevisíveis, do mundo tal como ele realmente existe.

“O que cada homem faz não se baseia em conhecimento direto e seguro, mas em imagens criadas por ele próprio ou que lhe foram fornecidas”, escreve Lippmann. “Se seu atlas lhe diz que o mundo é plano, ele não navegará perto do que acredita ser a borda de nosso planeta, por medo de cair. Se seus mapas incluírem uma fonte da juventude eterna, um Ponce de León partirá em busca dela. Se alguém desenterrar uma terra amarela que se pareça com ouro, por algum tempo agirá exatamente como se tivesse encontrado ouro. A maneira como o mundo é imaginado determina, em qualquer momento específico, o que os homens farão.”

Meu argumento sobre o Twitter de então, e sobre o X, o BlueSky ou o Truth Social de agora, é que essas plataformas moldam para pior as imagens que temos na cabeça. A preocupação mais comum, nesse caso, é a desinformação, as mentiras que se espalham como fogo nessas plataformas. E esse é um problema real. Mas concordo com Henry Farrell, cientista político da Johns Hopkins, quando ele escreve: “A mudança mais importante está em nossas crenças sobre o que as outras pessoas pensam, crenças que atualizamos continuamente com base na observação social”.

O que consideramos razoável dizer, ou até mesmo pensar, é construído a partir do que as pessoas ao nosso redor dizem e pensam. Somos todos criaturas das convenções. Essas plataformas nos cercam de vozes insensatas e antissociais, que quase sempre são mais interessantes do que as sensatas e bem-comportadas.

Isso pode levar a caminhos úteis, pois toda sociedade preserva alguma injustiça por meio das convenções e da cortesia. Mas também pode levar a caminhos bizarros e destrutivos, à medida que a atenção começa a girar em torno de pessoas pouco aptas à liderança, e as elites políticas perdem de vista o quanto suas ideias se tornaram desagradáveis.

A política, em todo o mundo ocidental, tornou-se mais desvairada e pior desde que começamos a terceirizar nossas imagens do mundo e uns dos outros para algoritmos que se importam apenas com engajamento e lucro. Tornar o ambiente geral da comunicação política mais histérico e ultrajante não produz sociedades mais justas nem líderes mais sábios.

O problema que a direita enfrenta em 2026 e enfrentará em 2028 se aproxima mais daquele que a esquerda enfrentou depois de 2020: por meio de Musk, ela domina o X e, assim, ficou totalmente exposta aos efeitos da estufa do X, que distorce a realidade e dissolve a prudência.

Ao desmantelar as barreiras de proteção do Twitter contra o racismo e o antissemitismo explícitos, Musk inundou a direita de groypers [ativistas da extrema direita associados ao nacionalismo branco e ao antissemitismo] e supremacistas brancos, que serão um problema constante na política republicana durante muitos anos.

Os democratas pagaram um preço por moldar sua política no Twitter; a direita pagará um preço por moldar a sua no X.

Esta tem sido uma era de loucura em todos os campos da política, porque grande parte dela transcorreu em plataformas que nos desestabilizam em nome do lucro. Tentar preservar ao máximo a sanidade exige um esforço constante. Mas a alternativa é pior.



Fonte ==> Folha SP

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